O debate público entre religião e secularismo no Brasil é praticamente inexistente. Mesmo num país tão predominantemente religioso (e talvez exatamente por isso), há poucas vozes e instituições envolvidas em conversas amplas e consistentes engajando todos os setores da sociedade. Porém um contexto de religiosidade prevalente torna ainda mais urgente a existência de lideranças críticas capazes de fomentar razão, ceticismo e valores seculares entre o grande público. Para um país como o Brasil, esse debate pode ser revolucionário. Como um passo nessa direção, esse post traça um panorama prático e geral da questão com objetivo de organizar uma referência fértil para esse debate, mas não desenvolvendo o debate em si substancialmente. Quem sabe esse texto sirva de motivação para o surgimento de futuras lideranças nessa conversa tão necessária ao país.

Como contexto básico, vamos a alguns dados sobre religião no Brasil. O primeiro gráfico abaixo traça uma evolução das principais religiões no país entre 2000 e 2010, de acordo com o Censo do IBGE. Incluído também está a porcentagem dos que se consideram ‘sem religião’. Ao menos quatro observações merecem comentário. Primeiro, o Brasil é (e sempre foi) um país predominantemente católico. Em 2010 a porcentagem de pessoas se designando católicos apostólicos romanos era de 64.5%. Segundo, houve um enorme crescimento do número de evangélicos (substituição de católicos), saindo de 26 milhões para 42 milhões de pessoas entre 2000 e 2010. Terceiro, a número de aderentes às outras religiões tradicionais – judaísmo, islamismo, espiritismo, etc – é mínimo. Quarto, o número de não-religiosos no país ainda não chega a 10% da população, apesar do crescimento entre 2000 e 2010.

Além disso, de acordo com o segundo gráfico abaixo, entre os 14,6 milhões de não-religiosos em 2010, somente 5% se declaram ateus ou agnósticos. A pesquisa do IBGE é criticada nesse ponto – pois a diferenciação entre termos não é clara – mas mesmo assim esse é um percentual baixo.

Uma primeira conclusão é imediata: o Brasil é um país altamente religioso. Não é surpresa então que o debate entre religião e secularismo seja pequeno. Pergunta para o leitor: a ausência de debate é causada por baixa demanda ou baixa oferta? Entretanto, além dos números estatísticos, há também inúmeros exemplos de influências religiosas na vida pública, na política e no sistema educacional. Bancada evangélica no Congresso, campanhas contra aborto, a favor da Cura Gay, diversos canais evangélicos na TV aberta, Marco Feliciano com 400 mil seguidores no Twitter, Garotinho, feriados católicos institucionalizados, Crivella, Pastor Everaldo, Jornada Mundial da Juventude, entre outros. Em 2015 o Supremo Tribunal Federal discutiu o ensino religioso nas escolas públicas e Feliciano propôs também o ensino sobre criacionismo nas escolas.

Notem que o problema das notícias acima não é o fato de terem sido propostas e debatidas, porque isso faz parte de um processo democrático de legislatura. O problema está no fato que, se aprovadas, estariam instituindo o ensino de ideias de uma religião em particular como ‘o certo’ para todos os alunos do país, independente de suas religiões pessoais (ou ausência delas), e não como uma entre diferentes visões de mundo num contexto social e histórico.

Este cenário se repete de forma semelhante nos EUA também, porém lá (e em vários países da Europa e Oceania) é acompanhado de um debate crítico e aberto sobre a validade de afirmações religiosas e suas interferências nas esferas pessoal e pública. Ainda não podemos afirmar que a crítica à religião já chegou a todas as pessoas, comunidades, escolas, etc; mas ao menos já há um corpo robusto de recursos para qualquer pessoa que queira explorar os argumentos pró e contra religião por conta própria. Abaixo gostaria de introduzir e compilar uma lista inicial de livros, debates e palestras sobre o tema para as pessoas interessadas no Brasil, onde o conjunto de recursos é ainda ínfima. Apesar de eu ter buscado também recursos em português, não é surpresa portanto que a maior parte dos itens que listo abaixo estejam em inglês (vários porém já tem tradução).

Comecemos pelos livros, que são sempre fontes mais completas onde autores podem desenvolver seus argumentos extensamente. A lista abaixo não é exaustiva, e sim limitada pelo meu conhecimento e interesse nos tópicos. Do lado anti-religião (contendo o chamado ‘Novo Ateísmo’), em ordem de prioridade, há o The God Delusion (Richard Dawkins), The End of Faith (Sam Harris), God Is Not Great (Christopher Hitchens), Waking Up (Sam Harris), Faith Versus Fact (Jerry Coyne), Breaking the Spell (Daniel Dennett) e God A Biography (Jack Miles). Do lado ‘religioso’, ou ‘acomodacionista’, há o The Great Partnership (Jonathan Sacks), The Science of God (Gerald Schroeder) e God’s Undertaker (John Lennox). Por viés pessoal, não me preocupo em listar livros que fazem argumentos unilateralmente religiosos que não dialoguem com os âmbitos empíricos e científicos.

Outra fonte de pensamento vem de debates e palestras. Estes chegam a ser divertidos por simples apreciação da retórica dos speakers, tanto que já cansei de os assistir como momento de relaxamento entre tarefas. Mas certamente não deixam de transmitir e desenvolver os argumentos de forma clara e precisa. A lista aqui é mais extensa.

Outra fonte infindável de debate e conhecimento é a mídia jornalística, de opinião e ensaios na internet. Textos em plataformas digitais são interessantes por serem geralmente mais curtos, trazendo a tona acontecimentos do cotidiano ou da política atual que se relacionem à discussão entre Secularismo e Religião. Infelizmente o número de bons ensaios escritos no Brasil é muito pequena. Esse tema parece nem chegar ao grande público, demonstrando mais uma vez a ausência do debate por terras Brasilis. Novamente aqui recomendo simplesmente alguns exemplos recentes de escrita sobre o tema, já que mundo afora a quantidade de material supera nossa capacidade de parseamento. Bons exemplos são os textos no El Pais, na Folha, no Globo, na Carta Capital, no New York Times 1 e 2.

Para os ainda mais interessados e para os querem se engajar ativamente no debate, há diversas instituições nacionais e internacionais promovendo valores seculares através de campanhas educacionais, debates etc. Entre elas estão a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, a American Humanist Association, a Atheist Alliance, a European Humanist Federation e a Richard Dawkins Foundation, entre outras.

Em conclusão, neste post tentei compilar diversos recursos que nutram o debate entre Secularismo e Religião no Brasil. Não desenvolvi o tópico substancialmente, pois as fontes que citei já o fazem muito melhor do que eu mesmo conseguiria. Minha esperança é que posts desse tipo façam parte do início dessa conversa no nosso país, porque atualmente vejo pouquíssimo interesse no tópico (baixa oferta e baixa demanda). No Brasil a religião é líder absoluta de audiência, e um movimento que valorize evidência, racionalidade e Humanismo como bases da construção de nossa civilização poderia não só nos tornar uma sociedade menos influenciada por argumentos e valores baseados em fé como gerar spillovers para outras áreas do debate público. Realisticamente, o caminho será duro e longo. Pois, afinal, Deus é brasileiro.