A cidade se chamava Roda-Viva. Era considerada a flor da região, e era fonte de cultura, arte e pensamento. Tinha jeito de cidade grande, mas era pequena, talvez a menor de seus pares em importância política e social.

Os que ali viviam eram chamados de rodeiros, ou muitas vezes também de bola. Mas havia quem não se agradasse de tal apelido. Porque apelido não agrada a todos, muito menos ser chamado de bola. Já viu, aos gordos não lhes convinham ser conhecidos como bolas. Qual gordo quer ser chamado de bola? Também não trazia sorriso aos rostos dos de cara redonda. Também nos de olhos bem grandes e redondos. Muito menos nos que viam em si mesmos qualquer traço de redondeza de caráter.

Não foi à toa que os com qualquer característica redonda que não queriam ser chamados de bola passaram espontaneamente a se chamarem de esferas. Assim mesmo, do nada, como surge qualquer palavra e expressão humana na língua dos falantes. Agora quem diria que eles estavam errados, contra a tradição, contra a norma? Simplesmente todo o resto da cidade! Porque palavras carregam sentido e história, diziam os intitulados bolas. Argumentavam que pessoas não tem informação perfeita sobre todos, que palavras nos ajudam a resumir informação sobre os outros de jeito rápido, pra não pensarmos demais. Porque somos ruins para pensar, diziam. Mudar de título cidadão seria a ruptura da identidade dos Roda-Vivenses, e a partir de então seria ladeira abaixo. Quem daria um senso de identidade às crianças? Quem unificaria a cidade, composta de pessoas de tão multivariados formatos, em momentos da necessidade maior?

Nada feito com os novos esferas. Para esses a liberdade da taxação veio veloz. E o prazer foi imenso. Esferas sim era o que eram! Agora o orgulho de características redondas veio a toda força. Tão forte que logo surgiram os que quisessem expressar essa experiência de liberdade.

E a capacidade artística vem pra todos, os redondos e os quadrados. Dêem-lhes somente a faísca de causa, de tristeza e sentido, que a arte explode em suas mentes. Rápido surgiram os folhetos cheios de objetos tri-dimensionais coloridos em aquarela. Vieram os esferas pintores com seus quadros não mais cubistas, mas sim esferistas. Porque foi esse o título do movimento artístico que estava em pleno desenvolvimento, concomitante às demonstrações sociais dos esferas perante as ruas de Roda-Viva. Porque a arte comunica, passa sentimento, cria identificação e desbunda os bundados (principalmente os bunda-bolas). As mensagens eram claras e se espalhavam como mancha de óleo em água limpa: venham para a rua esferas! já basta da hegemonia taxativa dos bolas! nós nos vemos como esferas, e quem são os bolas para nos dizerem o que somos?

A mensagem, junto com o espírito dos tempos de quebra de estruturas gramaticais e de hierarquia dos termos tradicionais, caiu como bomba sobre uma sub-classe dos bolas, os conservadores chamados polígonos. E os polígonos tentaram impedir o avanço do termo esfera como poucos na cidade de Roda-Viva. Usaram de seus laços nos meios de comunicação, e nos ambientes institucionalizados da língua da cidade. Bradaram alto que os esferas deviam criar sua própria cidade, que não tentassem mudar o imutável. Até que frearam o avanço dos esferas. Mas um meme contagioso vence a barreira das mentes que não querem mudança.

A arte esferista se sofisticou para literatura, poesia e música. Tomou conta agora dos jovens e das mentes inquietas. Em não muito tempo virou termo demandado no mercado de mídia da cidade. E quem freia a força da demanda? Os meios de informação gradualmente substituíram termos, removendo as antigas ‘bolas’ pelo termo da moda, os ‘esferas’. E projetos de marketing e design surgiram ao redor do conceito. Novos brandings foram criados, e agora novas marcas de roupa e moda adotaram a mentalidade esferista, tudo traduzido em produto para as massas.

O que começou com os poucos bolas, revoltados com a incompatibilidade de suas existências interiores com suas imagens sociais, se transformou através de tal fenômeno social, inexplicado pelos politistas, sociólogos e economistas da época, em algo maior e incontrolável. O que antes era um berro legítimo e honesto, de quem sofria a angústia da sub-retratação, agora perdia conteúdo e era adotado pelos que mal tinham poder de abstração pra entender a diferença entre o que é uma bola e uma esfera.

E os que lideram o movimento artístico, como o tempo, foram sumindo. Alguns foram assassinados pelos polígonos mais extremistas, outros porque não viam mais o propósito do envolvimento, haviam ainda os que simplesmente ficaram satisfeitos com os progressos sociais e se retiraram para a vida reclusa do campo.

Esfera era agora o novo estabelecimento cultural de como era conhecido quem vinha de Roda-Viva. Ninguém sabia explicar como havia ocorrido a transformação, mas era fato. Era a força do momento histórico? Era a conspiração dos donos de empresas, que lucraram milhões com o frenesi esferista? Era o poder inspiracional de certas lideranças do movimento, quem sem essas pessoas específicas nada haveria ocorrido? Ou era só o impulso natural do homo sapiens de querer se diferenciar dos outros de alguma forma, encontrando em cada situação diferentes meios de distinguir níveis de status?

A resposta fica para os cientistas do futuro. Porque não muito tempo depois do episódio brotavam nas mentes de alguns esferas que no fundo somos todos sem forma.