Você é um soldado numa tropa, no meio de uma guerra. Seu uniforme está levemente apertado e o desconforto causado é só suficiente para você notar que está vestindo algo. O suor se mistura com os barulhos que vem até você, sem que você escolha ou discrimine. Seu estado é de confusão, com tantos outros soldados ao seu lado, cada um vivendo uma luta interna, além da batalha que é comum a todos.

Sua vontade é poder fugir dali, é voltar pra sua família, à sua amada, até ao seu cachorro que você achava que não gostava. Agora os pequenos prazeres da vida passam a fazer sentido, pois precisamos nos afastar deles para que ganhem forma e cor. As distrações da rotina são fortes demais, mais fortes que uma guerra, e nos tiram do caminho do que importa. Mas, de fato, não é isso que importa agora. O mundo treme a sua volta e tudo que você quer é sobreviver. E sobreviver significa vencer a guerra. Não parece haver escapatória nesse momento da História.

A vitória vem com o seu exército derrotando o exército inimigo. Você não entende bem como chegar lá, mas essa é a causa comum a todos que estão com você. No entanto, você nota o paradoxo. Por que você não foge? Qual a diferença entre um exército de cem mil pessoas ou de cem mil pessoas menos uma? Você compartilha a vivência com seus companheiros mas nada se compara à sobrevivência. Se você pudesse, desobedeceria as ordens, viraria as costas à guerra e desfrutaria do benefício concentrado de fugir sabendo que pouco custaria a todo o resto da tropa sua ausência única.

Sua agonia é que o general, acima de você e todos outros soldados, conhece os incentivos da guerra e está lá para manter a ordem necessária à batalha. Pois não se vence uma guerra sem organização. E por mais que você reclame que isso é um abuso, uma violação, algo contra sua vontade, e por mais que você não veja valor na ordem, é ela quem te salvará. Passa pela sua cabeça que, afinal, há sentido à ordem, que há utilidade à ordem, e que uma guerra é o esforço de manter grupos de soldados cansados agindo em conjunto, como um grupo de pássaros no céu voando juntos sem se atrapalhar. Você nota que as tarefas mais simples, como movimentar um pelotão por cinquenta metros, não podem ser executadas desordenadamente. Mesmo o óbvio requer organização porque, se um inimigo surge à espreita, é preciso estar pronto para agir. E você enxerga seu inimigo a poucas centenas de metros de você. Fica claro que, mesmo se você discordar do general, agora o melhor é obedece-lo. Sua discórdia deve ser ouvida, mas não agora. Ela deve ser debatida antes, ou depois, nos conselhos de guerra, onde as grandes estratégias são estruturadas. Sua contestação deve vir de dentro do sistema, ainda cumprindo os métodos de contestação. Pois reclamar no meio da guerra não ajudará ninguém, só gerará um pequeno caos e uma possível grande derrota. Sim, você percebe. Talvez essa seja uma medida de Coletivismo que ninguém te explicou. Se reconhecer num grupo e saber abrir mão de vontades individuais em nome das do grupo, fazendo isso em todas as escalas de ações.

Você reconhece a guerra como uma situação extrema, onde organização e coesão são quase necessários à sobrevivência. Você sabe, e sente, que no dia a dia isso é diferente, que o caos é necessário e que revoluções, internas ou externas, são o movimento da vida. Não há generais em todas as esferas da vida, só os na sua cabeça. E esses você pode desconstruir.

A conclusão óbvia se mostra a você, cristalina como lágrima, enquanto um grande amigo cai de joelhos ao ser atingido por uma bala desgovernada. O que é uma sociedade sem essa medida de coletivismo, um coletivismo ordenado? Como podemos progredir se nossos próprios soldados estão o tempo todo perdendo a posição, se estão o tempo todo corrompendo seu próprio batalhão? Os exemplos mais imediatos te vem à mente. Se não respeitamos nem um sinal vermelho quando não há pedestres atravessando, como poderíamos esperar um governo eficiente? Se não conseguimos assumir que erramos e pagar uma multa sem ter o sentimento imediato de que a Lei deveria se aplicar a todos exceto você. Ou quando sonegamos impostos, num sentimento de “salve-se quem puder”, e reclamamos da corrupção na política. Ou simplesmente quando simplificamos o mundo e vivemos confortavelmente com nossas visões unilaterais, “escolhendo” ignorar a complexidade do mundo. Enfim, você percebe o paradoxo fundamental. Se não conseguimos marchar num pelotão num campo vazio e plano, como conseguiríamos vencer a guerra? Pior, como faríamos um país progredir?

Pois é, a vida em guerra, ou em sociedade, não é fácil. A maturidade requerida a tal é enorme, e o exercício de atos individuais com benefícios sociais é diário. Você aguenta reviver essa estória a cada sinal vermelho?