Uma das ideias mais poderosas que eu já vi é que toda forma de conhecimento é construído e passado a frente em pacotes. Em geral fazemos afirmações que englobam outras, e que carregam mais significado do que precisaríamos passar de uma vez. E as vezes nem tudo que falamos está certo. As vezes uma parte do pacote está certa e outra não (não discuto aqui o critério de o que é “certo”). E é comum também, ao refutarmos uma parte dos saberes de alguém ou algum grupo, de acharem que refutamos todo seu valor.

Por exemplo, de forma bem generalista, grupos no Oriente afirmam que meditação é um poderoso exercício de concentração, auto-conhecimento e “elevação espiritual”. Isso parece ser verdade e há muita Neurociência sendo feita atualmente tentando corroborar essa afirmação (ver trabalhos da Tania Singer). Porém muito rapidamente é dado um salto enorme para afirmar-se que o Universo é conectado, que Hare Krishna é a energia por trás da vida (perdoem-me a ignorância, é só força de expressão) ou que reincarnação é algo real. Esse salto é muito grande, e é parte do pacote de saberes desse grupo. E é fundamental perceber que eles podem estar certos por um lado e errado por outro. Podemos desconstruir as mensagens e tirar só o que vale a pena, só o que podemos afirmar com mais certeza que é verdadeiro. Podemos praticar meditação como um exercício secular, sem acoplar a isso nada mais do que o necessário (ver Sam Harris).

Essa é uma discussão parecida ao valor das histórias e contos na tradição Judaica. Contar uma história de como o povo judeu escapou da dominação Egípcia pelo Mar Vermelho que se abriu com a força de Deus pode ser interessante de várias formas. Pode passar muitas noções morais de liberdade e luta por direitos, pode ensinar nossas crianças valores que prezamos. Nesse sentido ela está “certa”. Mas certamente está errada em afirmar que o mar abriu de verdade, principalmente a mando de Deus falando com Moisés. Outros exemplos são os milagres de Jesus e tantos outros. Então pergunto, por que não destilamos os pacotes e mantemos só o que vale a pena? Se você achar que assim perde-se algo fundamental das religiões, perde-se parte do poder e da magia, de algo que as dá credibilidade pelo super-natural, é, realmente perde-se um pouco. Mas ainda conseguimos justificar muito da Moral e Ética só em termos seculares, só com o que a Evolução nos deu de capacidades humanas de discernir o Certo do Errado (afinal, Moralidade é uma construção humana).

Por fim, essa é uma das grandes virtudes da Ciência. Raramente afirma-se algo mais do que o estritamente necessário. A atitude cética, de duvidar de tudo e exigir fortes evidências empíricas de um fenômeno até que passemos a não-refutar uma afirmação, nos dá um conjunto de saberes muito seco. Só afirmamos o que podemos testar empiricamente. Partimos do vazio para o cheio. Nunca começamos com uma teoria fechada do Universo e dos Deuses. E por isso, através do Racionalismo Crítico, os pacotes que a Ciência forma são (quase) todos apoiados entre si, com o mínimo de explicações necessárias para o máximo de fenômenos possíveis.