Botei um anúncio num site de vendas para vender um celular Samsung S4. A história do aparelho é a seguinte. Meu pai tinha um S4, comprado por R$1800 numa loja no Shopping Leblon. Usou poucos meses antes de deixa-lo cair no chão, com sua tela quebrando por dentro. Tudo negro no visor, a solução era mandar para a garantia. Com o defunto enviado ao auxílio técnico, meu pai, fiel seguidor dos lançamentos tecnológicos, não conseguiu ficar sem celular. O S4 quebrou as 9:00 da manhã. As 14:00 já estava com outro na mesa, novinho em folha. Três meses depois, a Samsung lança o Galaxy Note II. Meu pai, como não podia deixar de ser, comprou o lançamento e deixou seu segundo S4, com três meses uso, na minha mão para revender. Esse sistema já entrou na rotina da casa: comprar lançamentos e revender antigos, todos os anos. A única perda aparente sendo no bolso, com a diferença de preços da compra do antigo e da venda como semi-novo, normalmente por volta de 30%-40%.

Depois de um mês anunciado no site, depois de 28 emails e 7 ligações, me aparece o Valmir. Como todas as ligações de números desconhecidos pra mim nessas semanas são sobre os anúncios, já atendi com tom impaciente de vendedor.

– Alô. Quem está falando?

– Oi, aqui é o Valmir.

– Pode falar Valmir. É sobre o Samsung?

– Isso. Fiquei muito interessado em comprar. Ele está em bom estado né?

– Sim. Está como nas fotos do anúncio.

– Claro, claro. E só vem com o carregador, certo?

– Exatamente, você deve ter visto no anúncio.

– Eu só estou certificando porque todos os anúncios que vi eram de celulares com tela trincada ou com peças faltando. Já comprei um aparelho assim e me arrependi. Você fica em Ipanema?

– Fico sim. Você passa por aqui?

– Passo. Eu sou gari e meu caminhão passa por Ipanema e Leblon sempre. Conheço um pouco a área. Agora estamos de greve mas vou de ônibus.

– Está ótimo. Vamos marcar na esquina da Joana Angélica 17:00h. O preço que está no anúncio é R$1050. Combinado?

– Combinado. Moro em Guadalupe. Pego um ônibus aqui às 15:30h e chego aí às 17:00h. Estou levando o dinheiro pra comprar já.

Bom, tudo caminhando rápido. Na primeira ligação já marcou dia e hora, e disse que traria dinheiro para fazermos a venda. Só uma coisa não me parecia natural. Um gari comprando um S4? Um celular de mil reais? Meu preconceito (ou será simples falta de costume?) já bateu à porta.

No horário, lá estava ele. Jovem, educado, simpático e bem modesto. De primeira já veio pedindo desculpas.

– Olha, não sei se você vai querer fazer negócio comigo ainda. Quando fui contar o dinheiro vi que só tinha R$1010.

– Ah, tudo bem Valmir. Vamos fazer mesmo assim.

– Vai contando o dinheiro então enquanto eu vejo aqui o celular.

– Ok, deixe-me ver.

Nisso, com um sorriso levemente envergonhado e já pedindo desculpas de novo, o Valmir me tira da polchete um maço de notas e uma bolsa com muitas, mas muitas mesmo, moedas.

– Eu estou juntando esse dinheiro há bastante tempo pra comprar esse S4. Em notas tem R$972 e em moedas R$38. A maioria é de um real ou cinquenta centavos mas tem muitas também de cinco e dez centavos. Acho que você não vai conseguir contar isso agora mas prometo que está certo.

Depois de contar as notas, vi que não poderia estar mentindo. No bolo tinha notas de 50, 20, 10, 5 e 2 reais. Das moedas, realmente tinham várias de um real. Quanto tempo ele passou juntando isso? Juntou de real em real botando tudo num porquinho?

– Confio em você Valmir. Deve estar certo.

Voltamos ainda conversando um pouco até o ponto de ônibus onde ele esperaria o 461 para chegar a São Cristovão. Eu voltei pra casa com a cabeça remexida e um bolso pesado de moedas fazendo barulho a cada passo.

Agora me pergunto. Por que o Valmir, que ganha em torno de R$800 reais por mês, comprou um celular de R$1000? No final, o aparelho saiu do meu pai e foi parar com um gari. A ponta do sistema, o mais novo membro de um mercado consumidor com acesso aos luxos da modernidade. Expressa desejos parecidos aos dos grupos que organizaram os Rolezinhos. Se não são ricos, tem no mínimo ambição o suficiente para gastar o que sobra em celulares ao invés de outras coisas talvez mais úteis. Quem sabe educação dos filhos ou um plano de saúde melhor. Mas é claro que tudo é uma questão de prioridades. A pergunta que resta é de onde surgem essas prioridades, da pura necessidade ou da forma como é estruturado o status na nossa sociedade.

O Valmir não é o único. Ele é só uma parte dessa roda de consumo que alimentamos. Ele possibilita pessoas como meu pai se realizarem na excitação (simples) de trocar de celular de seis em seis meses sem peso na consciência. Também possibilita gigantes como a Samsung tenham belos lucros, o que faz funcionar um sistema ainda maior de exploração de recursos naturais, transporte, industrialização, marketing e vendas internacionais. Não afirmo que nada disso é errado. Só me peguei vivenciando uma faceta do mundo que tanto nos afeta mas que suscita tão pouca reflexão.

Depois de contar as moedas, percebi que o Valmir mentiu. Não tinha R$1010, e sim R$1022.