Na nossa relação com o mundo exterior não podemos ter certeza de nada. Não conhecemos Deus, não conversamos com o arquiteto da Natureza. Nunca teremos certeza absoluta de nenhuma regra ou lei. Na velha discussão Popperiana, o máximo que teremos é uma não-rejeição de uma hipótese. Se observamos um objeto cair mil vezes, nada garante que cairá na milésima primeira. Ou seja, o melhor que podemos fazer é dizer: temos uma hipótese de que existe gravidade e, enquanto não houver evidências fortes do contrário, para todos fins a tratamos como verdadeira.Nossa visão de mundo funciona mais ou menos da mesma forma. Podemos ter hipóteses e teorias sobre como o mundo funciona. Podemos duvidar delas e tentar desprovar o que nos convir. No final, teremos graus de certeza sobre a realidade, regulados pela robustez de cada teoria. Quanto mais ela aguentar críticas dos repetidos experimentos do cotidiano, mais “verdadeira” nos parecerá. Um exemplo: teorizo que toda mulher loira é burra. Essa é uma hipótese a ser testada empiricamente (estatisticamente). Observo muitas mulheres loiras. Se um número suficientemente grande (não pergunte o quão grande) de loiras não forem burras, eu rejeito minha hipótese e passo a acreditar o contrário até que novas evidências me convençam.

Algo interessante para pensar. Das aulas de Econometria surge o clássico tradeoff viés-variância. Ele diz basicamente o seguinte: uma nova hipótese sobre o mundo pode diminuir o viés ou diminuir a variância de um estimador, mas (quase) nunca os dois. Uma nova hipótese diminui a variância do estimador pois reduz o número de casos possíveis do mundo. Entretanto, se na realidade a hipótese não vale, seu estimador será viesado, ou seja, fará previsões consistentemente erradas. Trazendo isso para a realidade. Nossas concepções de vida, nossa visão política, nossa moralidade, não são nada mais do que estimadores. Fazemos previsões, teorizamos sobre o certo e o errado. As vezes acertamos, as vezes não. Se fizermos uma hipótese a mais, que Deus existe, nossa visão de mundo será mais “estreita”, ou seja, será menos variada nas previsões (afinal, já cortamos tudo o que poderia acontecer se Deus não existisse). Mas se Deus não existir na realidade, então tudo o que pensamos estará bastante longe do real, nossa visão estará viesada.

Então, quanto mais hipóteses fazemos sobre o mundo, mais confortável nossa vida no sentido de que estamos menos sujeitos a questionamentos internos. Menor a quantidade de possibilidades para refletirmos e menor nossa angústia. Entretanto, podemos estar errando muito nossa visão em relação ao que as coisas realmente são. Podemos estar fechados demais, com a visão turva à realidade empírica que se mostra.

Questionar tudo, duvidar de tudo. E esperar ter boas evidências antes de acreditar em algo. Esse é o tal ceticismo científico que tanta gente pelo mundo esquece de aplicar ao dia a dia. Que tal “todo playboy é chato”, “todo maconheiro é vagabundo”, “todo político é ladrão”, “todo capitalista é porco”, “o ser humano é egoísta”, entre tantas outras “verdades” inquestionáveis. Não ter “opiniões fortes” pode te fazer perder um debate sobre política ou assuntos gerais, mas ter calma na adoção de crenças é bem mais razoável.