(Texto publicado no facebook em 15/03/2016)

A situação econômica, política e social do Brasil traz tanta angústia, de tantos lados, que resolvi soltar o desabafo à grande rede. O país vive a pior crise econômica em décadas e nossa política passa por um de seus momentos mais delicados. Se algumas situações justificam o grito, essa com certeza é uma delas. Então lá vai.

Começo pela precaução: sou liberal social e economicamente. E também sou a favor de justiça social. Sei que mercados não são perfeitos, e que o governo tem seu papel. Quero mais Bolsa-Família e menos Bolsa-Empresário. Sou a favor de casamento gay, de aborto, da tolerância, da libertação das mulheres, da legalização de algumas drogas, da defesa das minorias e de políticas afirmativas transitórias. Apoio eficiência no setor público, com políticas transparentes e avaliadas por resultados. Sou também a favor de ricos pagarem por universidade pública e do fim da estabilidade de cargos públicos (a não ser em casos particulares de interesse institucional). Luto pelo fim da pobreza e pela igualdade social. Sou partidário da Ciência e Razão como bases de sustentação do debate público. Separação entre religião e Estado é comigo mesmo (de fato sou ateu, mas esse é outro papo).


O que me deprime.

  1. Sucessivos erros de avaliação e julgamento em política econômica afundaram o Brasil numa recessão de 4% em 2015 com inflação na casa dos dois dígitos há 3 anos, com previsão de queda do PIB de 4% também em 2016. A previsão de redução da renda per capita já está em 10% até 2018. Avanços sociais importantes foram perdidos, a desigualdade voltará a níveis dos anos 2000. O desemprego já está em 8.5%, com 1 em cada 4 jovens desempregados. Quem mais perde numa estagflação é o pobre, que vê seu poder de compra rapidamente corroído pela inflação e desemprego.

  2. O desaparecimento e total impossibilidade da discussão sobre as reformas que o país realmente precisa, como a tributária, previdenciária, etc. Economistas vem alertando há um bom tempo sobre a bomba relógio que é o rombo na previdência e a indexação de gastos e transferências governamentais. Sem essas reformas estamos fadados a permanecer anos com crescimento baixo ou negativo. Vale lembrar que crescimento é talvez a maior força na luta contra a pobreza e desigualdade. E dada a crise política, não há sinal de pacotes ambiciosos sendo discutidos, muito menos votados e aprovados.

  3. Ver manifestações legítimas contra a crise e corrupção serem compartilhadas pelo discurso a favor do impeachment. E pior, serem tomadas também por políticos com discurso de ódio, como Jair Bolsonaro no Rio, e vários outros grupos conservadores a favor da intervenção militar e propostas correlatas. As manifestações foram legítimas e um grito de uma parcela significativa da população. A presença de pessoas sem opiniões embasadas e com visões simplistas de mundo não foi privilégio deste protesto: não me diga que todos os presentes nas Diretas Já sabiam as atribuições distintas do Executivo, Legislativo e Judiciário? De qualquer forma, os dois caminhos para a deposição de Dilma não foram julgados e ainda estão sob investigação: um impeachment de procedência talvez legítima (pelas pedaladas e LRF) mas de execução altamente problemática (com manobras de Eduardo Cunha), ou a impugnação no TSE pelas denúncias de irregularidades na campanha de 2014. Um impeachment abriria mais precedentes em uma democracia ainda jovem e deve ser executado apenas em caso de indiscutível embasamento legal. Gritar pela deposição agora é precipitado, oportunista e irresponsável.

  4. Lula ser apontado como ministro do governo Dilma é um atentado à democracia, à economia e ao futuro de milhões de brasileiros. Tentam ao mesmo tempo salvar o governo e Lula. Primeiro, Dilma impõe a si mesma de forma inédita o auto-golpe, o que nos levará a um presidente não-eleito comandando o governo e buscando evitar seu já quase decretado fim. Segundo, além de demonstrar mais uma vez a total falta de critério e meritocracia na escolha de ministros, a manobra visa dar foro privilegiado a Lula, investigado pela Lava-Jato. Terceiro, Lula já demonstrou que, se ministro, vai direcionar a política econômica para a mesma receita que trouxe o Brasil até aqui. Quantos milhões de brasileiros terão que perder seus empregos para que o governo admita seus erros? As perdas geradas por más políticas de desonerações seletivas, crédito no BNDES ou administração da Petrobrás tornam a corrupção da Lava-Jato esmola. Boas intenções não enchem prato de ninguém.

  5. Ver a ‘esquerda’, corretamente preocupada com a alternativa ao possível impeachment (Temer, Cunha, etc) e ainda bradando ’não vai ter golpe’ ou ‘é circo da Globo’, incapaz de acolher os fatos e admitir que o governo é em grande (senão total) medida responsável pela atual crise econômica que assola o país. Seja por temer o conservadorismo na política (como eu), a subida dos juros (como se as lições básicas de Macroeconomia fossem invenção dos ricos do Leblon), ou ainda por terem sofrido muito destrato dos governos estaduais na luta por melhores condições na educação ou transporte (especialmente no Rio com a truculência o corrupção do PMDB), a ‘esquerda’ não consegue lidar com as contradições do governo atual do PT. Fica presa a ideais coletivistas, onde não há natureza humana e tudo é culpa do capitalismo, e não ligam os pontos de causa e efeito na economia.


Mas ainda há espaço para algum otimismo.

  1. Ver políticos vaiados nas manifestações, como Aécio, Alckmin e Malafaia – mesmo que não pela maioria dos manifestantes. Isso demonstra a tão falada frustração e desconfiança com o nosso sistema partidário atual.

  2. Notar o amadurecimento de uma democracia jovem. Protestos pacíficos de 4 milhões de pessoas, poder judiciário e polícia federal atuando de forma independente, inovação institucional com delações premiadas o prisões de condenados em 2ª instância, etc. Notar nos últimos anos a política se tornar assunto de roda de conversa mais rotineiramente, ver o Brasil mais ‘politizado’. Vejo esse processo como a herança mínima que este momento deixará às futuras gerações. De fato parece haver mais polarização, mas vejo isso como um primeiro passo em direção à maior mobilização, mais accountability de políticos, etc.


Muitas delações premiadas ainda estão por vir, e a de Delcídio acaba de ser homologada. Suas acusações são gravíssimas, e os citados devem ser todos investigados. Comprovada a culpa, devem ser presos, seja Dilma, Mercadante ou Aécio.

Contudo, por fim, precisamos ser pragmáticos. Ter Temer como presidente me assusta mas talvez seja o menor dos males entre Dilma sem governabilidade e Lula sem legitimidade. Seriam apenas dois anos e meio de seu governo, e podemos lutar nas próximas eleições para que o PMDB não vença (dado o conservadorismo do brasileiro médio, não será tarefa fácil). Porque eu concordo: Renan, Temer, Cunha, são todos detestáveis. Porém não me venha com sabedorias de botequim como ‘que caiam todos’ ou ’não tenho partido, sou a favor do Brasil’, porque o nosso Brasil é o que tem para hoje, e precisamos tomar decisões reais com consequências para milhões. Também adoraria viver em um mundo onde todos se abraçam e cantam Imagine, só que esse dia ainda não chegou.

A encruzilhada é se deparar com tudo isso e perceber que essa posição é adotada por poucos no Brasil. A busca por moderação atrelada a realismo é posição não-grata no debate político nacional, sem representação alguma no Congresso. Talvez o desabafo venha mesmo da solidão do liberal em terras tupiniquins.