(Publicado também no Medium.)


Fui ao Hillel Rio para a primeira reunião de inscrição do Taglit, em 2008. É aquele programa que a pessoa passa dez dias em Israel pagando algo como $300 dólares. A elegibilidade começa com 18 anos, então estava lá também boa parte das pessoas da minha série na escola. Eu estava animado — qual jovem não estaria? Já tinha ido a Israel com família mas dessa vez seria diferente: iríamos em grupo, teríamos guia com um roteiro tendo entrada no parlamento e tudo mais. Depois da apresentação básica do programa chegou a hora das entrevistas individuais no segundo andar com dois dos organizadores. Depois de algumas perguntas básicas, mas ainda no começo do papo, me perguntam “você se considera judeu?”.




A história da minha família é um retrato da experiência judaica ashkenazi nos últimos séculos. Meus bisavôs eram de cidades pequenas na Polônia e Ucrânia — o clássico Shtetl. Lá dois dos meus tataravós Iossef e Hinda tinham uma padaria que os dava uma boa condição financeira. E como era de se esperar, eram todos religiosos. O lado Lerner da família era menos afortunado na Ucrânia. Meu bisavô Marcos dizia comer casca de batata do lixo quando criança. O Holocausto levou parte dos meus antepassados, mas outra parte conseguiu antecipar a guerra e fugir em rumo à liberdade das Américas. Parte da família foi pros EUA, mas meus bisavós Pinkwas Apelbaum e Reizla Buchenbaum desembarcaram no porto de Santos em junho de 1935 após uma trajetória fascinante.

Em 1932, os dois, que eram comunistas, foram se alistar na resistência contra os Nacionalistas liderados por Franco na Espanha. Passados dois anos, Reizla ficou grávida e decidem voltar pra Polônia. Mas, na época, já ouviam de poloneses recém-chegados que as tensões no país haviam crescido, e que dois irmãos de Pinkwas (Hinda e Aron) haviam fugido para o Brasil. Após conseguirem contactar Aron pelo consulado polonês, decidem embarcar para o Rio de Janeiro. Mas ainda viveriam um drama de filme: na saída da Ibéria, passando por Dakar no Senegal, o navio em que estavam afundou. E os dois tiveram que nadar com um bebê nos braços para se salvarem. Já no Rio, eles se unem à comunidade de judeus europeus imigrantes, que morava toda em bairros como Nova Iguaçú, Grajaú, Méier, e Tijuca. Meus bisavós trabalharam sempre com comércio: alguns vendiam bolsas, outros móveis, outros camisas.

Minha família foi sempre ativa na comunidade judaica carioca. Meu bisavô Marcos participou da fundação do Bialik — a primeira escola judaica do Méier. Meus avôs Saul, Joca, junto com Marcos e tio Jayme, foram uns dos 13 fundadores do lendário clube Monte Sinai na Tijuca, em 1969. Todos eles frequentavam o espaço todo final de semana. Meu avô Joca deu a vida ao clube. Virou craque de futebol, inventou a categoria “chupetinha”, treinou gerações de crianças, criou o “Calouros do Jocrinha”, foi presidente diversas vezes — era quase um popstar da “colônia”. À minha avó Genny, que faleceu cedo demais, foi dado o nome de uma sala de destaque na entrada. Meus pais, que também passaram a juventude toda na Tijuca, se conheceram e se casaram no clube. Desde então continuam membros honrados da comunidade: doam dinheiro pra diversas instituições judaicas, participam de eventos, e agora tem até cargo de destaque na Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ).

E, para além da história familiar, a qual acho admirável e inspiradora, tenho também enorme orgulho da história do povo judeu. Sua trajetória é uma de coesão, resiliência, e prosperidade através de milênios das mais variadas adversidades. Saíram de pequenos povoados no Oriente Médio, passaram por inúmeras expulsões, migrações, e perseguições (Pogroms, Holocausto), e culminaram na criação do Estado próprio em 1948. As várias explicações para tal inevitavelmente destacam o papel da religião como liga social, e da valorização da educação e discussões sobre Torah desde a infância. Mas, ainda assim, parece inexplicável que, em 2017, quando judeus compunham menos de 0.2% da população mundial, somavam nada menos que 203 prêmios Nobel — ou 22.5% do total. A lista inclui ninguém menos que Einstein, Bohr, Feynman, Samuelson, Arrow, Friedman, Becker, Roth, Krugman, e tantos outros. Israel, um país com 70 anos conturbados de existência, é a única democracia liberal da região, e realiza sucessivos milagres em crescimento e inovação tecnológica.




A pergunta “o que define um judeu?” é antiga. Eu mesmo já vi várias reações a ela, desde um suspiro desesperançoso após um “é complicado”, até longas digressões filosóficas. Simplificações a parte, na antiguidade, na época de David e das tribos, essa pergunta tinha resposta simples. Judeus eram aqueles com as “maneiras de um judeu”. Circular, claro, mas o ponto é que identidades englobavam todas as dimensões da vida. Nascia-se e vivia-se sempre dentro da mesma pequena comunidade. Todos tinham a mesma religião, os mesmos hábitos, mesma cultura, mesma alimentação, casavam entre si, etc. Daí floresce a ideia do “povo judeu”, que sobrevive até hoje.

Mas hoje tudo é mais complexo, e há sempre confusão quando surge esse assunto. Gostaria de propor uma definição que faça sentido mas, antes, precisamos esclarecer certos termos. Com esse objetivo em mente, primeiro explicarei alguns princípios de categorização. Depois, quero delinear algumas das definições tradicionais usadas hoje em dia e, por fim, discutir a minha definição de “ser judeu”.

Vamos lá. Categorização nesse contexto é atrelar palavras / categorias / classificações a conjuntos de ações / características de pessoas ou grupos. Há dois tipos de categorias: as externas e internas. Categorias externas são aquelas definidas externamente à pessoa — com origens em autoridades, normas sociais, entre outras. São palavras que tem significado na medida que pessoas as usam concordando, implícita ou explicitamente, sobre sua definição. Por exemplo, entende-se hoje em dia que ser “europeu” significa ter nascido em solo de um determinado número de países. Um indivíduo não tem escolha sobre se faz parte da categoria ou não: o que importa é se ela encaixa na descrição. Já categorias internas são definidas pela própria pessoa, e diz respeito a ela mesma. Por exemplo, posso dizer que tenho 60 anos, ou que me identifico com a identidade negra. Entretanto, para mim, categorias internas são vazias de sentido: dizer que se é algo não faz se ser este algo, e vice-versa. Trataria-se de uma constante redefinição de termos, o que é contra-producente e confuso. Portanto, foquemos em categorias externas.

Continuando, eu listaria características normalmente relacionadas a “judaísmo” em três grupos.

  1. Imutáveis: origem histórica, sanguínea e genética (ter antepassados judeus, ser originário de certas áreas do mundo, etc.).
  2. Ativas não-religiosas: exercitar a cultura (tradições, comida, música, etc.), ter conjunto de traços de personalidade (difícil de explicitar numa lista, mas coisas como um certo tipo de humor, de auto-depreciação, de apreço aos estudos, etc.), e sentir elo emocional com Israel.
  3. Ativas religiosas: seguir a religião e Torah (crenças, preceitos, regras, Kashrut, Shabbat, festas, etc.), em diferentes graus.

Tradicionalmente já circulam por aí algumas definições de judaísmo. A grosso modo, grupos ortodoxos consideram uma pessoa judia se esta tem mãe judia. Reformistas só requerem algum dos pais ser judeu, e que haja princípios da cultura e religião judaica na casa. Para o Nazismo em 1933 um judeu era quem tinha 3–4 avós judeus — ter 1–2 era ser mestiço. Pra mim, entretanto, essas definições não são razoáveis. Só que, antes de introduzir as que considero mais lógicas, quero discutir a distinção entre ser e estar.

Dizemos que somos algo quando temos uma característica imutável, ou talvez quando temos características ativas já enraizadas por muito tempo. Por exemplo, posso dizer que sou brasileiro (nasci no Brasil), sou homem (tenho cromossomos YX), não sou carpinteiro (nunca aprendi nem pretendo no futuro), etc. Por outro lado, dizemos que estamos algo se exercemos uma dimensão ativa em um dado momento no tempo. Eu estou vivo (um dia morrerei), estou lendo um livro (um dia o terminarei), etc.

Aqui podemos esclarecer a grande sacada das definições comuns de judaísmo: elas todas dependem principalmente de características imutáveis. Logo, uma pessoa nunca está judia — ela só pode ser ou não ser. Ou seja, não importa se não há execício ativo, ou mesmo interesse. Alguém nascido judeu seria para sempre judeu. E por que isto é uma jogada esperta? Bom, primeiro, porque usa uma definição simples de entender e observar. E, segundo, pois é uma ótima estratégia para coibir abandonos, e para reaproximar pessoas afastadas da comunidade—pessoas que talvez descubram antepassados judeus e sintam vontade, ou obrigação, de retomar as origens.

Explicadas as bases filosóficas, vamos às minhas definições. Eu chamaria de judeu praticante alguém atendendo aos grupos 1–3. Uma pessoa só com grupos 1–2 eu definiria como judeu secular. Por fim, alguém só no grupo 1 não seria chamado de judeu. Pra mim, de nada importa características imutáveis, nem se uma pessoa diz que “por dentro se sente judia”, se ela de fato não exerce nenhum elemento ativo da identidade.

Discutamos alguns desses elementos, em ordem de importância. Pois, como ficará claro abaixo, tenho problemas com todos eles.

Começo pelo elemento religião — porque não faria nem sentido tentar construir uma definição coerente de judaísmo sem essa dimensão. A religião judaica é a primeira das Abraâmicas, e tem pelo menos 3 mil anos de história. Como qualquer religião tão antiga, esta tem uma trajetória cheia de ramificações, interpretações, reviravoltas, etc. Tentar descrever aqui a religião e sua mitologia auxiliar é impossível. Porém, para se ter uma ideia, esta é a religião da Torah, do monoteísmo, do hebraico/aramaico, do Shabbat, de Moisés abrindo o Mar Vermelho, do Universo tendo 5779 anos, de Adão e Eva, dos 40 anos de exílio no deserto, da Kashrut, do Bar-Mitzvah, de Yom Kippur, da Kabbalah, da numerologia, do Shofar, etc. Talvez a crença mais fundamental na religião seja que a Torah é o livro sagrado, entregue por Deus a Moisés no topo do Monte Sinai, e que contém a Verdade com V maiúsculo. Cabe a nós, humanos, interpretar seu texto e derivar dele significado e inspiração.

Segundo, ser judeu requer um exercício da cultura desse grupo. E por cultura, me refiro ao conjunto de crenças, tradições e hábitos que são transmitidas de uma geração para a próxima, e que podem ser ou não associadas à religião. Por exemplo, existe uma rica gastronomia judaica. E parte de ser judeu é ter comido durante a infância receitas com matzah, gefilte fish, beigaleh, etc. Outro elemento é compartilhar o humor judaico, que foi notadamente retratado por Woody Allen em seus filmes. Também nessa lista está conhecer um pouco de música judaica, que tanto anima festas de casamento mundo afora. Ou até partilhar de outros pequenos trejeitos culturais, como falar “Mazel Tov” em momentos de benção. Na infância, incluiria também estudar em escolas judaicas, participar de movimentos juvenis (Habonim Dror, Hashomer Hatzair, Chazit, Betar), ir à Kinderland, etc.

Em seguida, ser judeu passa por se ter um elo com Israel. Essa terra, que é talvez o elemento fundador da mitologia judaica, é também uma constante no imaginário da comunidade. Não à toa a divisão geográfica relevante para judeus é Israel e a Diáspora. Esta é só provisória — com relevância justo até a volta à terra sagrada. Rabinos falam “ano que vem em Jerusalém”. E o país mantém a Lei do Retorno, que garante cidadania e ajuda do governo a qualquer judeu que escolher migrar para lá. Há diversos programas nos quais jovens judeus viajam pelo país para conhecerem e criarem laços (Taglit, Shnat, Marcha da Vida). Israel está sempre presente na educação em escolas judaicas e movimentos juvenis: tanto sua história como eventos atuais são ensinados e discutidos. Apesar da diversidade política na comunidade judaica, é comum perceber viés quase axiomático pelo lado de Israel em questões geopolíticas, e uma disposição emocional a perdoar mais seus erros do que os dos inimigos (deixemos a substância do conflito no Oriente Médio para pessoas incomparavelmente mais qualificadas que eu no assunto).

Das características imutáveis, vale discutir o pertencimento à etnia judaica. Por etnia eu digo ter uma linhagem que tenha feito parte da comunidade — seja ashkenazi ou sephardi. A tradição judaica, inclusive, é bem estrita sobre pertencimento à religião e comunidade. Por exemplo, as linhas mais ortodoxas só consideram judeu uma pessoa nascida de ventre judaico. Conversão ao judaísmo é um processo longo e difícil. Não há nem interesse interno nessa possibilidade como ferramenta de expansão (diferente do Cristianismo): nenhum judeu religioso tentará converter alguém na rua. Casamento com “goys” (não-judeus) é no mínimo mal visto e, muitas vezes, proibido.

Espero ter feito justiça até agora ao que uma maioria de judeus concordaria “ser um judeu”. Construir consensos máximos é árduo porém necessário, pois livra discussões de discordâncias ruidosas e fertiliza progresso em direções produtivas.

Dito isso, minha questão é: para mim, como pessoa racional, adepta aos valores do Iluminismo e Humanismo, apaixonada por Ciência, aprendiz em Filosofia e Estudos Sociais, membro do mundo moderno e cosmopolita, ser judeu é impossível.




Vamos por partes, começando pela religião. De início, Deus quase certamente não existe. Os argumentos para tal afirmação são vários mas listo apenas alguns. Primeiro, religiões são mutualmente inconsistentes: cada uma tem seu(s) Deus(es), suas crenças sobre criação e pós-morte, seus rituais e seu conjunto de afirmações empíricas. Para uma ser verdade, todas as outras tem que ser falsas. O mais provável, obviamente, é que todas estejam erradas. Segundo, simplesmente não há evidência em favor da existência de Deus algum, em particular do Deus da Torah. Como disse Laplace a Napoleão, para explicar o Universo, Deus é uma hipótese desnecessária. Na Era do Aço (época do surgimento da religião judaica) entendia-se pouquíssimo sobre como funcionava o Universo. Hoje, porém, temos Física sofisticada que descreve as leis da Natureza com precisão estonteante, do pequeno ao grande e do rápido ao devagar. Um Deus intervencionista (e raivoso) como o da Torah é incompatível com as leis da Física.

Na mesma linha de pensamento, basicamente todas as afirmações minimamente testáveis (os truth claims) na Torah são falsas. Não se abre um mar com um cajado, o mundo não tem 5779 anos, não existiram Adão e Eva, não houve o dilúvio de Noé, entre outros. Também já podemos, desde 1859, refutar o argumento de desenho inteligente para a vida. Religiosos sempre disseram algo como “só um Deus poderia ter criado um Universo tão perfeito e seres vivos tão complexos como nós.” Mas, hoje, entendemos que complexidade surge do simples, após muito tempo de evolução por seleção natural, como proposto por Darwin e Wallace. Ainda mais fundamental, em Ciência, o arbitrador último do que é verdade ou não é a Natureza. Nós inventamos teorias falseáveis que podem ou não ser consistentes com observações e experimentos, e construímos conhecimento a partir daí. E nada garante que entendamos intuitivamente como funciona o Universo. Evoluímos para sobreviver na Savana, e não para compreender os mistérios da existência. Na verdade, o progresso que fizemos em 400 anos de ciência é quase um milagre: o considero talvez a maior realização da humanidade. Tratar um livro como revelado sagrado e, portanto, verdadeiro por definição, vai frontalmente contra razão guiada por evidências. Ainda mais, vai contra intuições básicas de como vivemos a vida, criando hipóteses e as testando rotineiramente em situações mundanas.

Outro argumento em favor de religiões é o moral. Afinal, de onde viria nossa moralidade se não de Deus? Sem um absoluto de referência, que base temos para julgar o que é certo e errado? O que, então, me impediria de roubar ou matar? A resposta, claramente, é que nossa moralidade não vem de livros sagrados. Ela vem de uma mistura de intuições biológicas que todos temos — como a “regra de ouro” que, inclusive, vários outros animais também tem — com progresso em filosofia moral e valores humanistas. Religiões raramente iniciam tais mudanças. Pelo contrário: elas acabam se adaptando aos tempos e sorrateiramente reinterpretam passagens problemáticas em seus textos sagrados a luz de nossos valores e conhecimentos atuais. Para nos auto-regular, inventamos a Lei dos Homens, com coisas como constituições, o sistema judiciário, polícia, etc. Não obstante, não me incomodaria de filtrar a Torah de suas afirmações falsas e a interpretar como um potencial guia moral, ou mesmo como literatura. Entretanto, se fosse esse o objetivo, então por que não posicionar a Torah dentre a totalidade do conhecimento, arte e filosofia moral já produzida pela humanidade? Afinal, ela é também escrita por mãos de carne e osso. E, como tal, é de fato um tanto pior do que a média.

Por fim, podemos levar a sério a espiritualidade humana sem ignorar o que já sabemos sobre o Universo. Experiências como pertencimento a uma comunidade, ou um senso de sagrado, de eterno, de êxtase, podem ser cultivadas e obtidas por outros meios, como associações humanistas, drogas ou meditação. Se ainda sobra um vazio que só religiões podem preencher, como resolver o problema da morte ou explicar por que existe consciência, bom, então eu recomendaria só que vivamos confortáveis com a dúvida. Enfrentar tais mistérios, mesmo com medo, encarando-os olhos no olhos, pode ser um exercício de caráter.

Em seguida, há o elemento etnia e cultura judaica. Motivado por uma mistura de predisposições individuais minhas com o espírito dos tempos, numa batalha monumental entre paroquialismo e cosmopolitanismo, vivo aqui a experiência conhecida entre judeus como “assimilação”. Mas vamos por partes.

Veja bem. Eu sou como membro gold standard da etnia judaica. Talvez, não surpreendentemente, dada a história da minha família descrita acima, o resultado do teste de origem genética do Ancestry foi inequívoco: meu DNA é 97% “Eastern European Jewish”. Meus quatro sobrenomes de família são Dahis, Apelbaum, Grumet e Lerner. Sou brasileiro de 3ª geração mas, se fosse à Polônia, aposto que consideraria todos meus primos. Sou também fruto direto da cultura e experiência judaica na diáspora. Estudei a vida inteira no Eliezer Steinbarg-Max Nordau, frequentei o Habonim Dror todo sábado até os 16 anos de idade, fui à Kinderland dez vezes (de colonista e monitor). Tive as festas judaicas em casa, com algumas das comidas tradicionais preparadas por minha tia avó. Na escola eu cantava as músicas tradicionais tipo Yerushalayim Shel Zahav e Hava Nagila. Sou circuncisado, e fiz Bar Mitzvah com 13 anos na Associação Religiosa Israelita (ARI).

A esse conjunto de forças, que atraem uma pessoa para dentro do grupo e que a mantém ali talvez por uma vida inteira, eu dou o nome de forças paroquiais. Estas fizeram sentido, e foram efetivas, durante a grande parte da história da humanidade. Através de quase todo nosso passado, até mesmo tempos recentes como antes da Revolução Industrial, as pessoas viviam em pequenas sociedades, com péssimas condições materiais, e sujeitas a toda sorte de doenças, pragas, choques climáticos, entre outros. Sobrevivência dependia da cooperação de todos membros do grupo. Mas cooperação e coordenação são problemas notoriamente difíceis de se resolver pois, individualmente, cada pessoa tem incentivo a pegar carona nas ações de outros e não fazer nada. As soluções encontradas pela evolução e cultura envolvem criar coesão social e mecanismos de monitoramento e punição aos não-cooperadores. Alguns exemplos são religiões, tradições, línguas, códigos de ética, nacionalismo, fofoca, entre outros. Nesses aspectos, os judeus foram sempre excepcionalmente bem-sucedidos.

Com o advento do Iluminismo, da Revolução Industrial, da globalização, da urbanização, do Grande Enriquecimento, e do colossal progresso testemunhado nos últimos 250 anos, porém, esse modus operandi passou a perder importância. O mundo moderno Ocidental fez do indivíduo a unidade relevante de medida moral e, para isso, transferiu poder da família e comunidade local para governos e mercados. Uma longa lista de coisas, que no passado eram providas só por familiares e conhecidos, hoje o são por comerciantes e por instituições impessoais: educação, saúde, bens de consumo dos mais variados, empréstimos, seguro-desemprego, etc. Outras revoluções, como as de comunicações e transportes, contribuíram também para a abertura de sociedades, e libertaram indivíduos ainda mais das amarras de seu local de nascimento e de pequeno grupo de conhecidos.

A esse conjunto de forças, que empurram o indivíduo para fora de seu arredor local e em direção ao mundo, eu dou o nome de forças cosmopolitas. E esta onda eu estou surfando na crista. Sempre vivi em cidade grande no Brasil — ou seja, mesmo atrelado a uma comunidade judaica apertada, estive sempre em contato com outras culturas, com pessoas não-judias, com outras línguas e literaturas. Graças à boa condição financeira da família, pude fazer intercâmbio de 5 meses nos EUA aos 16 anos e depois outro de 1 ano em Paris durante a universidade. Hoje faço PhD em Economia nos EUA, que somará um total de 6 anos. Sou talvez da primeira geração que cresceu com internet e banda larga. Vivemos na era Wikipedia, Google Search, iPhone, Youtube, Spotify, Google Maps, etc. Sempre priorizei viajar e conhecer o mundo. Namoro há anos uma não-judia (como, aliás, boa parte dos meus amigos judeus).

Talvez diferentes pessoas pendam para diferentes lados dessa batalha entre paroquialismo e cosmopolitanismo, de acordo com preferências pessoais. Mas eu não hei de resistir às possibilidades da modernidade. O mundo é mais fascinante que meu bairro. Só na minha rua há gastronomias de mais de dez países. Quero morrer falando 8 línguas. Busco incessantemente boas ideias e conhecimento, independente de sua língua e lugar de origem. Aprecio e me nutro de todo tipo de música. Portanto, não faria sentido me limitar só à cultura judaica. Sentir o gostinho dessa riqueza e viver dentro de um pequeno grupo paroquial seria quase um atentado à minha humanidade. Como diz meu pai, eu “sou do mundo”.

Por fim, falemos de Israel. Novamente, eu tenho bons motivos para ter uma ligação especial com o país. Para além da sua centralidade na escola, na sinagoga e na psiquê da comunidade, parte significativa da minha família hoje vive lá: duas irmãs, sobrinhos, duas tias, vários primos, e dezenas de amigos ou conhecidos. Minha avó viveu lá por cinco anos quando era jovem durante a formação do Estado. Já viajei para lá três vezes, e devo ir várias mais ao longo da vida. Isso tudo é relevante e, naturalmente, põe Israel muito acima do que boa parte dos outros países na hierarquia da minha atenção. Mas, lavagens cerebrais a parte, o que eu tenho de fato a ver com o país? Não cresci lá, não falo hebraico, não acompanho a política local, não sei muitos detalhes da história do país, não sinto nenhuma fraternidade ou empatia com israelenses a mais do que com quase qualquer outro grupo em particular. Se dependesse de mim, Jerusalém seria terra internacional, não me importo. E mais, quem dera os judeus tivessem habitado outro pedaço de terra no pós-guerra, algum lugar onde pudessem viver em paz em seu Estado próprio. Num mundo sem religiões, eu apostaria que pelo menos 80% das tensões no Oriente Médio desapareceriam instanteneamente. Conflitos lá seriam no máximo problemas imobiliários.




Dito tudo isso, e dada a minha definição de judaísmo, o que resta? A resposta é: praticamente nada. Eu não fui aceito pro Taglit. Desde os primeiros questionamentos na época do Bar Mitzvah até hoje minha posição não mudou. Pelo contrário, a maturidade na vida e nos pensamentos só tem tornado tudo mais claro e sólido. Eu não me considero judeu.

Sei, entretanto, que essa conclusão depende das minhas próprias definições. E entendo que não mudarei sozinho as categorias externas já existentes. Boa parte da comunidade judaica me chamaria, sim, de judeu. Se Hitler voltasse ao poder, nada que eu falasse poderia convencê-lo a me poupar. Mas, ao menos pra mim, essa conclusão faz sentido. E suspeito que muitas pessoas ao meu redor, que não cumprem ativamente nada da identidade judaica, mas que ainda “se sentem judias por dentro”, estão só confusas com definições.

É claro que ser ou não judeu não deveria fazer diferença alguma na minha vida pessoal, nem nas das pessoas ao meu redor. Se elas gostam e confiam em mim, ou não, é determinado pelo meu caráter e por minhas ações. Ao dizer “não sou judeu” não estou declarando meu não-pertencimento à minha família e círculos de amizade. Não estou me retirando para o grupo “dos outros”. Nada muda no meu amor pelas pessoas ao meu redor. Continuo sendo eu.

Mas, ao esclarecer minha identidade, revelo também a minha tragédia. Por um lado eu amo e admiro a identidade judaica. É nela minhas origens e minha criação. É por ela que meus ancestrais batalharam, e por causa dela que partes enormes de suas vidas foram afetadas. Sou agradecido por tudo, e, por isso, gostaria que esse bastão continuasse sendo passado a frente. Por outro lado, não consigo racionalmente lhe dar continuidade. A vejo escorrer pelas minhas mãos, mas lhe segurar me é impossível. Vejo que eu, inevitavelmente, matarei uma parte de mim.

E afirmo isso por alguns motivos. É preciso fazer contas não em anos, mas em gerações. Meus bisavôs eram mais judeus que meus avôs, que eram mais que meus pais, que são mais do que eu. De mim para frente não sobrará quase nada. Como serão, então, meus descendentes daqui a cinco gerações? Sei também que sou simples cúmplice e testemunha de um momento histórico específico. A onda secularizadora que me leva também abarca grandes partes do mundo, incluindo vários dos meus amigos. No futuro podem sobrar dos judeus só os ortodoxos, se tanto. Quem sabe, para um povo que já sobreviveu a perseguições e a tentativas de exterminação em larga escala por milênios, assimilação talvez seja um problema menor. Ou talvez esta seja uma corrosão lenta e irrefreável, por dentro, que ocorrerá no tempo das mudanças demográficas, e que nenhuma pessoa terá individualmente o poder de enfrentar. O tempo dirá. Aos judeus, desejo boa sorte.

Finalizo com outra meditação. O que sobra de nós quando despimos nossas camadas de identidade, uma a uma? Quem somos nós para além de nosso tom de voz, nossa cor de pele, nosso corpo, nossos pertences, nossa história? Qual é a essência de uma mente? Que forma tem nossa consciência?