Já é narrativa comum. Boa parte dos membros de minorias políticas (negros, LGBT, mulheres, indígenas) acusam Bolsonaro de fascista, sexista, homofóbico, etc. Estão com medo verdadeiro do que pode vir pela frente com sua eventual eleição. E judeus Bolsonaristas respondem “Mas Bolsonaro ama Israel. Como pode então ser nazista? Isso é coisa de esquerdopata”. Tiram o corpo fora, ignoram todas as declarações explícitas anti-minorias e pró-ditadura como só “brincadeiras”, “não estava falando sério”, “já amadureceu”, pois já tem seus interesses defendidos.

É fato que Bolsonaro se tornará um ditador a la Pinochet e retornará o Brasil a uma ditadura militar que persegue minorias? Não. Mas estamos agora no jogo de adivinhação probabilística. É este um cenário possível e com probabilidade maior do que deveríamos estar dispostos a aceitar? Certamente.

Já é comum , e irresponsável também, setores da esquerda usarem a palavra “fascista” para criticar os mais variados grupos no espectro ideológico da “direita”. Não compactuo com tal prática pois diminui o peso da palavra, aumenta a polarização e só gera mais ressentimento de pessoas conservadoras com a esquerda.

Outro fato, entretanto, é que o medo destas minorias tem fundamento. Primeiro, não só o Brasil tem números de violência de guerra civil, mas é ainda mais violento com minorias. É o país que mais mata homossexuais no mundo, é onde feminicídio matou uma mulher a cada duas horas em 2017, e cuja taxa de homicídios de negros (pretos e pardos) foi de 40,2, enquanto a de não negros (brancos, amarelos e indígenas) ficou em 16 por 100 mil habitantes.

Como se não bastasse nossas médias, o que dizer da validação que uma eventual eleição de Bolsonaro daria a setores violentos da sociedade? Os casos já começaram. Um mestre de capoeira levou 12 facadas em Salvador por apoiar abertamente o PT. Conhecidos meus já foram ameaçados e quase espancados. Ouviram que levariam tiro se porte de armas já fosse legalizado.

Probabilisticamente, não está em jogo os espantalhos da “direita” (alternativa ao Bolsonaro é Venezuela) e da “esquerda” (Bolsonaro é fascista). Essas distinções importam. Mas as ameaças reais à estabilidade de nossa jovem democracia estão presentes a cada flertada de Bolsonaro com o autoritarismo.

Agora, negar todos esses riscos (à democracia e a minorias) de cara lavada afirmando que Bolsonaro ama Israel é uma hipocrisia. Esquecem que judeus foram minoria por toda sua história. Sim, hoje Israel é símbolo de progresso, democracia e liberdade no Oriente Médio, mas sua força é quase uma contingencia histórica.

Tal posição prova que esse grupo de judeus não prezam a democracia para todos. Não parece haver o risco de Bolsonaro amanhã se voltar contra Israel. Por isso vibram. Mas e o risco real a outras minorias? “E daí? São todos comunistas.”

É verdade que ser negro, LGBT ou indígena, hoje, correlaciona-se com apoiar agendas econômicas de esquerda intervencionistas, e com práticas de política de identidade. Destas eu discordo. E, sim, o PT tem parcela grande de culpa no atual cataclisma fiscal e recente recessão por qual passamos. Serei o primeiro a denunciar sua irresponsabilidade e incompetência em termos de política econômica.

Mas a manutenção da democracia liberal, a qual o Ocidente tanto demorou para alcançar e da qual já tanto se beneficiou, demanda trabalho e requer tecido social denso. Temos um projeto de civilização, e esse passa por reconhecermos todos como membros da mesma comunidade humana. Todos com direito à vida, à liberdade de ir e vir, à liberdade de associação, entre outras previstas na Constituição.

Sim, o Brasil tem números de homicídios e violência de países em guerra civil. É um problema a ser enfrentado seriamente com política de segurança pública inteligente e eficaz. Não estou “defendendo bandido” nem desvalorizando a vida dos policiais mortos diariamente também. Também não estou atribuindo toda a violência sofrida, por exemplo, por negros a perseguição e racismo. Negros estão mais em risco, pois são em média mais pobres, menos educados, mais propensos a participar do crime organizado, etc. Herança da nossa história desigual socialmente. Mas o que está potencialmente em jogo é algo mais profundo: as bases da nossa democracia. As alternativas – de “estado da natureza” cada um por si, ou autoritarismo (de esquerda ou direita) – são aterrorizantes. Século XX está aí para nos ensinar.

E ainda pior. Esta posição só alimenta anti-semitismo para com a sociedade em geral e a visão da esquerda de que judeus e Israel são imperialistas. É como se alinharmo-nos aos evangélicos na defesa de Israel fosse motivo de orgulho. Podemos apoiar Israel sem sacrificar nossos princípios democráticos no Brasil.

Notem: não há uma visão política única na comunidade judaica. Muito pelo contrário. Somos complexos e diversos, como qualquer conjunto de indivíduos em qualquer lugar. Criticar outros judeus não é anti-semitismo se a crítica é no mérito dos argumentos, com tom colegial, no campo das ideias.

Cada pessoa dá um peso diferente a cada questão na hora de escolher em quem votar. Priorizar economia e luta anti-corrupção é compreensível. Mas negar o risco a minorias e à democracia não dá. Só não vê quem não quer. Desculpe, judeus Bolsonaristas, mas essa posição demonstra egoísmo, irresponsabilidade, falta de empatia e um verdadeiro foda-se a outras minorias no Brasil.