No ano passado tive a oportunidade de trocar alguns emails com um amigo, que chamarei aqui de João, sobre Judaísmo e Ciência. Foi especialmente interessante por eu ter estudado a vida inteira numa escola judaica, e hoje estar mais distante, e por ele não ter sido criado como judeu, e hoje estar estudando Judaísmo Rabínico. Os emails são longos, tocamos em vários pontos, então é mais pra quem tem vontade de explorar o assunto. Mas, bom, sempre vale a pena esse tipo de discussão.

Está tudo organizado em ordem cronológica num post único. E tive que fazer leves edições por questões de privacidade.

Espero que gostem, e comentários são sempre bem-vindos!



- 23/04/2014

Fala João!

Quero te recomendar também esse vídeo. É um dos melhores que eu já vi do Sam Harris e toca em vários pontos interessantes.

https://www.youtube.com/watch?v=ITTxTCz4Ums

Depois me diz o que acha.

Abraço

Ricardo


- 05/05/2014

Eu concordei com tudo que ele fala. Como (quase) sempre todas as críticas de religião que ele apresenta não só não condizem com a realidade do Judaismo Rabinico como seriam igualmente expressadas em sua maior parte pelos próprios rabinos.

A questão que eles nunca tocam que acho a mais monumental é a questão de tecnologia herdada. A maior parte da ciencia moderna é focada em “Descobrimentos” de tecnologia, mas pouca enfâse é dada no fato de que a maioria dos comportamentos humanos modernos essencialmente não mudaram desde a época “das cavernas” e algo de muito “Certo” esta sendo repitido pelas civilizações que prosperaram. Inclusive boa parte desses “descobrimentos” modernos é só uma questão de traduzir coisas que sempre soubemos em forma de formulas mais racionais e menos supersticiosas. O triunfo do judaismo não é em uma definição de Deus, até por que os rabinos estão prontos para dizer que nossa definição é tão trancendental que pode-se dizer que Deus não precisa existir para que ela funcione, e por isso se torna impraticavel. O que sim temos é uma serie de tecnologias herdadas que garantiram nossa sobrevivencia na frente de mais oposição do que houve em qualquer outra civilização “sobrevivente” se é que pode se dizer que existe outra (advinda do mundo antigo). Esse ateismo cientifico é bonito só enquanto se rebela contra a imposição infantil do mundo cristão, mas isso os rabinos estão fazendo desde o inicio do Cristianismo, então frente a nós e nossa herança esse mundo supostamente “racional” é uma racionalidade que esta engatinhando. Nós fizemos todas essas perguntas e mais, basta ler os livros de seus avós. Perto do que desenvolvemos este novo mundo cristão simplesmente trocou “Deus” por “Cosmos” num mesmo jogo de propaganda influencial que levou-os a trocarem “Zeus” por “Jesus”, mas a falha de compreensão meta-egoica deles continua a mesma. A tecnologia que conquistamos não aumentou nosso acesso ao “Cosmos” só nos convenceu mais de que sabemos de alguma coisa de fato, quando a única verdade é que somos limitados demais para saber ao certo.

Para concluir a base do Judaismo é exatamente a mesma dessa galera “anti-idolatria”. Eles acabaram de entrar no trem da anti-idolatria e procurassem nos arquivos daqueles que o trouxeram ao mundo.

Só uma coisa a mais que pensei quando ví a indiana perguntando “E essa vontade fascista que tenho de trazer justiça ao mundo?”

Essa é uma ótima pergunta. Me lembra ontem no ensaio. Entrou um cara na sala e começou a dar suas opiniões sobre nosso ensaio. Ele disse que podia não estar assim e assado, e essa parte é legal aquela outra não. E daí perguntei “então o que você sugere no lugar?” E ele disse que não sabia. No final gastou tempo de ensaio e atrapalhou nossa auto-confiança em tocar as músicas e não ofereceu nenhuma reforma. Esta é minha pergunta aos ateus, tudo bem, TODA A RELIGIAO QUE JA EXISTIU NO MUNDO É BALELA, mas e aí? O que colocar no lugar? Como fazer essas pessoas supostamente racionais não se matarem e matarem uns aos outros. Certas coisas servem para intellectuais de elite que tem estômago e altruismo necessário para continuarem ético frente a grande responsabilidade, por isso no Judaismo temos uma tecnologia avançada que muitos roubaram da gente, isto é o “segredo” que mantem a verdade escondida daqueles que a usariam contra eles proprios. No final das contas todos achamos que sabemos de tudo, mas temos que tomar cuidado para não interromper ensaios que não fomos convidados, ainda mais se só queremos tirar e não contribuir.

Um abração!

João


- 11/05/2014

Excelentes emails cara! Tem muitos pontos aí então vou tentar responder por partes o que conseguir.

PS. Desculpa o tom um pouco didático demais, mas fui escrevendo o texto até como exercício de expressão do que penso.

Em geral, o conhecimento no mundo, seja científico ou não, vem em pacotes. Esses pacotes tem coisas certas e coisas erradas, ou coisas que não podemos julgar como verdade ou falsidade. Um conjunto de ideias, ou uma religião, pode acertar por um lado e trazer uma série de problemas por outro. A questão é que em geral é difícil destilar esses pacotes e aproveitar só que há de bom. Por exemplo, a religião Hare Krishna acerta quando estimula o auto-conhecimento, a meditação como prática de mindfulness, a compaixão, entre outros. Mas muito rapidamente dá-se um salto e começam a especular sobre a criação do mundo, a origem da vida, o funcionamento da Natureza e o significado da morte. Não é preciso refutar todo tipo de religião porque, como qualquer conjunto de saberes, há coisas boas e ruins. Só é preciso colhermos o que realmente podemos ter alguma certeza que é bom e que é “verdade”.

Isso me traz ao segundo ponto. Precisamos definir “verdade” pra podermos começar alguma discussão. Até antes disso, é preciso concordar se acreditamos na existência de uma “verdade”. E, se existe uma verdade, também existe uma falsidade. Aristóteles começou a lógica clássica por aqui, com as leis da Identidade e do Terceiro Excluído. Dado que aceitamos a existência de uma verdade, vamos definir verdade. A Ciência usa a definição de verdade como correspondência. O que corresponde aos fenômenos do mundo natural é verdade. Por isso damos tanta importância a testes e experimentos, porque precisamos comparar nossas afirmações à evidência natural (também por isso a grande importância aos procedimentos de rigor de testes, para que nossa percepção humana falha não interceda). O que não pode ser testado ficará para sempre na categoria de perguntas que “não deveriam ser perguntadas”. Se não há uma resposta natural, e se, consequentemente, não podemos falsea-la experimentalmente, a pergunta não cabe a nós. É claro que há perguntas que só se tornaram falseáveis muito após terem sido perguntadas, mas estamos discutindo em princípio.

Outro ponto epistemológico é o reconhecimento do tamanho da nossa ignorância. Nascemos e somos criados num mundo no escuro. Nosso conhecimento é construído a duras penas, e tudo que aprendemos pode não passar de um feixe de luz na escuridão de uma noite sem estrelas. A Ciência testa, testa e testa até chegar a leis naturais que explicam a evidência e experiência empírica. Nunca temos a verdade, só temos afirmações que ainda não foram refutadas. Nem dizemos que a Lógica ou a Matemática são verdades objetivas (diga-se de passagem, muito menos as religiões). Elas são simplesmente a linguagem humana que, por um milagre histórico, conseguiu tornar a Natureza inteligível, interpretável e até previsível para nós. Uma alegoria que gosto é a do Feynman sobre xadrez. Nós, seres humanos, estamos presenciando um jogo de xadrez dos Deuses, mas no escuro e sem conhecer as regras. Ao observar o jogo, após muito empiricismo e abdução lógica, descobrimos que um cavalo anda em L. Agora nada garante que entendemos o resto do funcionamento do jogo, muito menos o grande Porque metafísico do jogo. Não podemos buscar o Porque. Só podemos fazer perguntas de causa e efeito, no mundo natural e material.

Mais um ponto relevante aqui. Tudo nos leva a crer que Materialismo é verdade. Não há nenhuma evidência empírica em favor de um Dualismo, seja religioso ou não. Talvez a pedra-fundamental do Dualismo, que é a ideia de alma, é altamente rejeitada por nosso entendimento de Neurociência. O cérebro é estruturado em módulos interconectados, cada um composto de bilhões de neurônios. Há tarefas “simples”, como o reconhecimento de uma cor, que são feitas numa área só, e tarefas complexas, como pensamento abstrato ou consciência, que precisam de múltiplas áreas, conectadas de forma tão complexa que só nosso conhecimento a respeito ainda é bem básico. E o cérebro tem organização altamente hierárquica e paralelizada. Ou seja, se um caminho tem problemas, ele só afetará o todo por um lado. Um exemplos simples de novo é a visão. Temos neurônios sensoriais que só disparam quando captam retas (contraste alto) e outros que só disparam quando detectam uma certa claridade. Esses dois neurônios mandam sinais para outro, num nível acima, que só disparará quando os dois de baixo dispararem, ou seja, quando houver uma reta e uma certa claridade. Essa estrutura, altamente complexificada, dá origem à nossa visão. O incrível é que nossa consciência é irredutível. Só temos acesso à imagem final, já processada e reconstruída. Não conseguimos separar a claridade da linha reta, só recebemos o produto final. E a questão é que, se um desses caminhos falhar, se os neurônios das retas morrerem, não deixaremos de ver claridade mas perderemos as divisões de retas (há neurônios só para curvas). Tudo isso para dizer o seguinte. Nossa personalidade e percepção são particionadas. Se uma área tem problemas, se a área de reconhecimento de rostos ou a área de regulação emocional falham, nós simplesmente mudaremos de personalidade. Deixaremos de ser o Ricardo e João, e passaremos a ser outra pessoa, com outras características, com outras memórias (ou sem memórias). Não há uma alma, inteira, que carrega nosso temperamento, planos e identidade. Só temos nosso cérebro. De fato, não parece haver alma e, portanto, não podemos ser Dualistas.

Agora, concordo que o Ateísmo (Materialismo, Monismo) tira algo e não retribui com uma solução. É tirado de nós o sentido de vida que estamos acostumados a ter, é tirado o Absoluto moral que rege sociedades, é tirada uma resposta para a morte. O vazio cabe a nós preencher com o melhor que tivemos, porque no fundo tudo ainda será limitado e imperfeito. Não existe o perfeito, nem o infinito. Essa é a conclusão final que devemos aprender a enfrentar. Quando trilhamos esse caminho começamos a questionar o quão sagrados são os livros e se os rituais e costumes sociais são divinos ou puramente man-made. A cada pergunta vamos ganhando mais um vazio. E esse vazio me dá arrepios a noite antes de dormir. Mas é preciso escolher tomar a pílula vermelha ou a azul. Eu gostaria muito, mas muito mesmo, que houvesse um lugar de paz eterna após a morte, mas todas as evidências são contrárias a isso e eu só consigo me apegar às evidências.

Sobre a longevidade do Judaísmo, é claro que isso é louvável. Isso mostra que o povo conseguiu manter uma cultura e uma forma de pensar que trespassou a História. Porém algo ser velho não o torna mais verdade. Na verdade, uma cultura nem precisa se dizer verdade para se manter firme. É perfeitamente consistente que o Judaísmo exista como cultura e “etnia” junto com a Ciência. Mas só sobreviverá a parte do Judaísmo que não faz afirmações sobre o mundo natural. O resto, perfeito. O que me parece que o Judaísmo cultiva é uma atitude crítica frente ao conhecimento, um valor pela discussão, e até mesmo outros valores sociais que ajudam a organizar uma sociedade. Esse conjunto de saberes pode ter passado, por enquanto, do teste do tempo, mas isso não o torna relevante em termos metafísicos. Acho bonito exaltar essa cultura, mas não tiremos mais valor dela do que algo histórico e social, muito menos algum juízo de valor sobre a “qualidade” dos judeus vs. não-judeus.

E sobre trocar “Deus” por “Cosmos”, não é verdade que estamos no mesmo jogo de propaganda. Com tudo que falei antes, acho que fica claro que a atitude frente ao “Cosmos” é uma de admiração e mistério, não uma de divindade real. Realmente percebemos que não sabemos quase nada. Mas a Ciência nos deu acesso às relações de causa e efeito (e isso, na Física, já entendemos bastante), o que já é algo. A atitude muda, e é isso que importa. Deixamos de ser crentes para sermos céticos, mesmo que não tenhamos chegado às respostas fundamentais, pois nunca chegaremos.

Ter interlocutores empolgados é um dos grandes prazeres da vida. Então continuemos!

Abração,

Ricardo


- 11/05/2014

Caro Ricardo,

Enquanto muitas pessoas que se chamam de “subscribers” da metodologia cientifica na epistemologia, vêem algo como o Judaismo como contráditório com seus preceitos, os rabinos não dividem o inverso. Muitos rabinos, incluindo o grande mestre o Maharal de Praga, insistiam que seus discipulos aprendessem as “artes seculares” por que dizia que “visto que mantemos que a Torá é o código onde toda a existência foi baseada, as ‘artes seculares’ só podem vir a confirmar o que sabemos pela Torá e adicionar insights a isso”. Muitas outras “religiões” não tomaram esta posição aberta com a ciência e seus filhos, e por isso, com muita razão muitos dos aderentes do movimento científico se colocaram numa posição de defensividade para com “religiões” no geral. Por outro lado, os rabinos de modo geral vêem a ciência como uma nobre tentativa dos Edomitas de se livrarem dos “pecados” da idolatria, mas consideram a ciência como um irmão (que usa a razão e tenta fugir das nuvens da superstição) bem mais novo e inexperiente. Por isso a maioria dos grandes mestres simplesmente ignoram o movimento científico. Enquanto outros poucos realmente se esforçam para criar “respostas” aos ‘desafios’ da do irmãozinho ciência isso não deve ser visto como uma tentativa de justificação do Judaismo (chas ve shalom) mas sim um esforço de reaproximação de Judeus que foram criados sem Torá e por isso geraram um preconceito contra a Torá que é sustentado por essa defensividade contra religiões que o movimento cientifico tem, acima citado. Mesmo assim, esses que se esforçam para responder os ‘desafios da ciência’ normalmente são Baalei Tshuva (mestres do retorno), como eu mesmo, que foram criados no ‘mundo científico’ e por isso tem um pouquinho de nostalgia romantica com o movimento por sequela de uma vida dedicada à digestão da bela evolução do pensamento ocidental de Aristoteles a Richard Dawkins.

Agora sobre a definição de verdade. A nossa visão é uma visão mais quântica. Isto é, não acreditamos que exista essa verdade fatual, do latim ‘fato’ que significa ‘feito’. O relato do que foi ou não ‘feito’ vai sempre depender de quem observou e por isso jamais podemos confiar em ‘fatos’. A nossa definição de verdade ‘Emes’ em Hebraico, ignora totalmente os ‘sentidos’ e o que eles podem absorver. ‘Emes’ é definido no Talmud como aquilo que que é completo, pacífico e eterno. Ou seja, enquanto as ‘verdades’ da matemática são totalmente ‘Emes’ por serem formulas imutáveis, qualquer uma que for mudada se torna então não-Emes. Emes pode ser visto tambem como não uma questão de sim ou não, mas de qualidade. Algo que perdura e sobrevive com constância é mais Emes e coisas que vão mudando são menos Emes, e as coisas que cessam são certamente não-Emes. Um exemplo pode ser a Coca-Cola. Em 1886 não era claro se a Coca-Cola era Emes ou a Outra-Cola (que nunca vingou) era Emes, mas hoje a Coca-Cola sobreviveu e as Outras-Cola não perduraram e mesmo que haja Algumas-Outras-Cola hoje a que mostrou ser mais consistente durante os anos foi a Coca-Cola e por isso podemos dizer que é um refrigerante Emes, algo que se tornou inclusive uma definição da palavra ‘refrigerante’. É neste sentido que a Torá é verdadeira, ou Emes. Enquanto houveram diversos outros movimentos que tentaram usar ‘partes’ da sabedoria da Torá, só a Torá por completa é Emes e perdurou. E hoje essa minoria de um pequeno país do mundo antigo é uma das maiores potencias intelectuais reconhecidas pelo mundo inteiro, sem contar influência politica e social. Então no final das contas ficamos como você sugeriu ‘no escuro’ pois já que não vemos o futuro, não podemos saber o que realmente é Emes, pois a Coca-Cola pode ir a falência a qualquer momento, mesmo que pareça impossível o ‘verdadeiro’ refrigerante pode se revelar ser a Pepsi, em 50 anos. É só interessante notar que esta defnição rabínica de Emes (verdade) é muito muito mais antiga do que a ciência e a ciência parece aos poucos se aproximar dela.

Sobre o dualismo: “Shma Israel, HaShem Elokeinu HaShem Ehad”. Isso é o que falamos pelo menos duas vezes por dia em congregações judaicas. “Escute, Israel, O Nome é nossa Autoridade, O Nome é Um”. Não só não acreditamos no ‘dualismo’ como o condenamos. O universo para um rabino é assim como o cerébro é, uma complexa rede de associações hierárquicas. Do mesmo jeito que pode se chamar o cerebro do Ricardo de ‘o cerebro do ricardo’ pois ele trabalha de acordo com a ‘vontade do ricardo’ (seja consciente ou não). O Universo em sí é um cérebro, uma complexa rede de assoçiões hierarquicas que trabalham de acordo com uma vontade (seja consciente ou não) e esta vontade nós chamamos de HaShem (o Nome). O aparente dualismo vem do problema das ‘partes falantes’. O que reconhecemos é que somos partes e não o todo, por isso reconhecemos que pequenas partes formam ‘clusters’ de outras maiores partes, tipo o carburador é uma parte do motor de um carro, o motor é uma parte do carro e um carro pode ser parte de uma frota. A alma é complicada e dificil de definir aqui, até por que o termo ‘alma’ não é em hebraico e ‘alma’ é usada para traduzir o que em hebraico são mais de 10 palavras diferentes. Mesmo asism posso dizer que a ‘alma’ (mais ou menos) é um cluster que inclui vários corpos, o corpo é uma parte da alma, um componente, este ‘corpo’ inclui toda essa personalidade que você mencionou. A alma em sí é um sistema de ‘correções’ que usa esses ‘corpos’ como portais para terem experiencias, como se fosse um software. É tipo como você pode jogar um jogo de video game e aprender alguma coisa, mesmo que você não seja o Mario do Mario Bros. você usa a ‘personalidade’ do Mario e ganha novos insights sobre o que você realmente é. Assim a alma do povo Judeu usa os corpos chamados ‘João’ e ‘Ricardo’ que não é exatamente ela, para aprender coisas e se desenvolver.

Dizer que não existe o absoluto é em si uma expressão absoluta. O mistério desse problema revela muita luz. A ciência tem feito grandes esforços para tornar o homem mais humilde. Mas ainda podemos ser mais ainda humildes. Isto é, levar o ‘só sei que nada sei’ mais adiante e não admitir nem que sabemos que nada sabemos, pois podemos estar enganados e realmente saber de certas coisas.

Quando me refiro a idolatria do cosmos, não quero dizer como divindade pois nem sei exatamente o que significa este termo. Não pode ser só algo que admiramos e que achamos acima de nós e misterioso, como você definiu a ‘crença’ no cosmos. No final, HaShem e ‘Cosmos’ pode ser visto como a mesma coisa (Chas veShalom). Quando digo ‘acima’ quero dizer mais importante, maior, e que nos inclui. Acho que talvez você tenha o ‘dualismo’ cristão em mente quando pensa em “Divindade”. No Judaismo ‘HaShem’ inclui a gente. Pode se dizer que a nação brasileira esta “acima” dos cidadãos brasileiros e é nesse sentido que o ‘cosmos’ ou ‘HaShem’ esta acima do homem. Mas o Judaismo não acaba em reconhecer que existe o cosmos e que estamos abaixo dele. Inclui tambem, entre milhares do outras coisas, admitir que não sabemos a vontade do cosmos. Porque existir, etc. mas que temos acesso a emanações da vontade do cosmos. Ou seja, as leis da física, da psicologia, algumas da ética etc. que nos informam mais ou menos qual é a vontade de cosmos pelo menos referente a nós mesmos. Por exemplo, observamos que o Cosmos criou a vida e que para a vida perdurar precisa de um elo entre o masculino e feminino, por isso “santificamos” o casamento, pois ele faz com que os ‘odds’ fiquem a favor de nós na continuação da vida. Percebemos que enquanto não é todo casamento que gera fruto (filhos) e não é todos que geraram frutos casados, aqueles que geraram mais frutos com saúde o fizeram enquanto casados (sem contar Genghis Khan). O que é Casamento? É uma serie de leis e costumes que visam fazer o homem e a mulher sobreviverem trágedias, dúvidas, etc. sem perder o elo, tudo pelo bem da vida. Afinal, como podemos nos desenvolver se estamos mortos? Então pode-se dizer que HaShem “quer” o casamento, ou pelo menos que HaShem “prefere” o casamento. Pode ser que no futuro a gente “evolua” alguma outra forma mais eficaz de “união” ou de “procreação saudável” que seja mais inteligente do que o casamento, mas até agora só existem teorias e nada foi provado ser melhor na prática. Se acontecer, podemos dizer que a Torá estava errada, mas até lá sempre esteve certa (neste quesito [[parece ‘pequeno queijo’]]).

Concluo dizendo que não sabemos isso nem aquilo, mas que não podemos nos fechar a possibilidades. A sabedoria da Torá é extensa e protegida (a maioria não é aberta). Entender do que exatamente se trata não é simples e são rarissimos os casos de pessoas de fora que entenderam se quer mais ou menos o que é, pois já são raros os casos de pessoas “de dentro” que tambem chegaram a conclusões satisfatórias sobre do que se trata. O Christopher Hitchens ao menos deu uma pesquisada, o que fica claro nos debates deles. Porem, enquanto eu conheço muitos rabinos que são ‘mestres’ da ciência, eu não conheço nem um ateu que é ‘mestre’ de pensamento judaico. Me parece que quanto mais pensamento judaico alguem estuda mais longe fica a possibilidade de se dizer ‘ateu’. Então o Judaismo é como uma praga, ou um cancer para o ateismo. Eu sugiro que se quiser continuar se chamando de ateu, que fique longe do Judaismo, mesmo como ‘costume histórico social’ pois uma coisa leva a outra. Sentar numa mesa de seder em Pessach já é uma ‘gateway drug’ para coisas mais pesadas como estudar talmud. Enquanto as outras religiões (tirando algumas partes boas, conforme sugeriu) são como lenha para a fogueira do ateísmo, quanto mais você estudar, mais terá certeza de que esta no caminho certo. Para fortalecer seu ateísmo eu prescrevo 3 meses num mosteiro cristão e muita cautela com sua ‘herança’.

Uma boa recomendação é um rabino que dá um shiur interessante a cerca do fenômeno ‘30% dos budistas americanos são judeus’.

https://www.youtube.com/watch?v=kSzfA5WEzd0

Um abraço,

João


- 13/05/2014

Obrigado pelo segundo email cara. Pra mim está sendo ótimo, espero que pra você também.

Torá, para mim, é também um pacote de saberes. Certas coisas fazem sentido (porque fariam sentido para qualquer ser humano, seja vindo de um livro, por uma história ou qualquer outra coisa) e outras não. Não podemos selecionar o que faz sentido e admitir que há trechos que não deveriam estar lá? O nosso conhecimento do mundo e de nós mesmo cresceu exponencialmente nos últimos séculos e me parece que as religiões não o abraçam por medo de que, se o fizerem, seus livros deixarão de serem sagrados e isso desestruturaria algo fundamental para suas organizações. Por que não tiramos toda a sabedoria da Torá, como de fato há muita, as dando peso humano às frases? Tudo continuaria sendo revelador, enriquecedor e belo, mas não precisamos do sagrado.

De fato o “sagrado” parece surgir em sociedades humanas como método de regrar moralmente uma sociedade complexa. Sem uma lei “absoluta”, como organizar um grupo tão grande? As religiões monoteístas, com um Deus moralista, que diz o que você deve comer e o que deve fazer no banheiro (desculpe o tom pejorativo), parecem ter surgido junto com a agricultura, há 10 mil anos atrás. Se torna clara a necessidade do “sagrado”, porque resolver o problema de coordenação e organização de pessoas é realmente difícil (haja vista nosso belo Brasil que não consegue segurar a inflação), e se torna claro porque temos esse drive tão forte em nós. Mas não precisamos mais dele, podemos tentar resolver de outras formas. E acho que esse argumento se aplica ao seu exemplo de casamento. É lógico que procriação é importante, e por isso precisamos preserva-la. Então criamos instituições capazes de enforce algo que seres humanos as vezes precisam de ajuda para fazer (se controlar o não trair seu parceiro, resistir a dúvidas, como você disse). É por isso que eu não acredito em casamento. Prefiro acreditar que consigo me manter amando uma pessoa sem uma regra “absoluta” por trás. Mas ainda assim eu reconheço seu valor como disciplina para sociedades que querem perdurar.

Uma das maiores forças da Ciência é que não há meias-palavras ou inexatidões. Só se faz afirmações sobre o que for passível ser afirmado de forma precisa. E daí se fazem testes. Não se diz nada sobre o resto porque o resto pode não ser necessário para explicar o mundo natural. E nunca dizemos que sabemos tudo. Na verdade é bem o contrário. Os cientistas admitem que sabemos pouco do mundo, e que a Ciência está fazendo progresso, que pode demorar muito tempo ou mesmo nunca chegar até o entendimento “completo”.

Por isso, não entendi o que você disse sobre a Torá ser nosso código da existência e a Ciência só podendo vir a confirma-la. A Ciência contesta as afirmações da Torá que são passíveis de teste ou de análise lógica. E de fato já se questionou muita coisa. No meio tempo, a religião foi mudando de tom. O que era dito factual antigamente não é mais hoje. Hoje é visto como metáforas e histórias. A ciência já disputa Adão e Eva, a criação do mundo, Noé, etc. Se a Tora mantiver só a parte do pacote que fala de afirmações não-empíricas, não do mundo natural, acho que nesse sentido a Ciência e religião poderiam coexisir. Agora, o resto, é difícil afirmar a priori que “a Tora está certa e a Ciência só pode vir a confirma-la”.

Física quântica tem o efeito do observador para certos fenômenos em escala quântica. Eu não sou um físico mas sei que essa questão tem uma definição clara dentro da Física. Fenômenos mais macro, na escala que observamos, não tem mais o problema do observador. E, de qualquer jeito, esse exemplo é sempre metaforizado pra relativizar afirmações ou dizer que “tudo está conectado”. Seguindo um argumento do próprio Sam Harris de novo, não é porque Física Quântica é de difícil compreensão e certas afirmações, digamos, “espirituais” são de difícil compreensão, que essas coisas devem estar relacionadas. A Ciência tem seus métodos pra remover os vieses humanos dos experimentos (double blind, peer review, etc). E ela faz afirmações claras e testáveis sobre o mundo. Juntando com a definição de verdade, cria-se então um paradigma completo de exploração e expansão de conhecimento dito “verdadeiro”.

Fico interessado pelo conceito de Emes, mas tenho um receio. Emes me parece ser uma tautologia, assim como a ideia de destino. Se algo que tem Emes hoje perde Emes amanhã por desaparecer e, como você mesmo disse, nós não podemos prever nada, então o conceito é redundante. Discordo que Ciência está se aproximando de Emes porque Ciência tem a preocupação com experimentação e replicação. Uma afirmação cresce em probabilidade de ser verdadeira conforme novos experimentos são feitos e não a refutamos. Mesmo assim nunca poderemos afirmar que algo é verdade, e sim só que a probabilidade de ser falso é muito baixa. E eu concordo que o Judaísmo perdurou muito e é muito bem-sucedido em vários aspectos. Agora isso é, em boa medida, explicável por fatores históricos, econômicos e políticos. A ideia de Emes não ajuda em nada e ainda traz uma importância meta-física a uma coisa que não precisa disso para ser importante, só que em outra medida.

Também fico interessado pela sua interpretação do Judaísmo como não sendo dualista. E entendo, e acho que faz sentido, pensarmos que nós mesmos fazemos parte do todo. Também acho que faz muito sentido o que você diz sobre HaShem inclui nós mesmo. Só me pergunto então se eventos da Torá, como o dilúvio de Noé ou Moisés pegando os 10 mandamentos, são executados por um ente “pessoal” ou não. Porque se reinterpretarmos essas histórias como só uma vontade do Cosmos, e não de um agente a parte, cairemos na pergunta “e isso, como parte do mundo natural, é possível?”. E nesse quesito a Ciência, como disse, já negou várias coisas. Continuo então com essa dúvida. Se o Judaísmo não mantém um Deus “humano” como o Catolicismo, então onde está a agência das histórias da Torá?

E por último, é complicado argumentar que só porque não conhecemos algo a fundo não podemos o criticar. Realmente o Christopher Hitchens pode ter falado besteiras sobre o Judaísmo, e talvez até coisas que, caso ele soubesse, ele teria uma opinião diferente a respeito do todo. Mas eu não preciso saber de tudo sobre Holocausto para criticar seus princípios básicos. Eu não preciso saber tudo de Horóscopo para criticar sua base científica. E um cientista não precisa ser mestre do Judaísmo para criticar suas bases (supondo que ele conhece suficientemente suas bases). Fora o fato que precisamos definir “mestre” pois também questiono o quanto um rabino “mestre das Ciências” sabe sobre Ciência e seus métodos.

Abraço,

Ricardo


- 14/05/2014

Não é tão simples assim. Não é questão de ‘medo de abandonar o conhecido e o confortável’. Dentro dos saberes mais místicos existe uma premissa, “quanto mais concentração, mais a mente humana funciona”. Isso leva a uma outra premissa, vis a vis a mente humana esse conhecimento todo adquirido é visto como nada mais do que uma distração necessária dada a nossa falta de habilidades naturais de sermos independentes e auto-suficientes, mas mesmo assim uma distração. A premissa continua: A consciencia cosmica, a sensibilidade apurada dos sentidos, a compaixão e o uso objetivo do cerébro são todos conquistados com essa concentração, essa “pureza” de foco. Quanto mais a gente “evolue” socialmente mais longe a gente fica de ver o ser humano como um ser simples, humilde e distante de entender o ‘todo’, quanto mais humilde formos, mais claramente conseguimos ver a ‘realidade’, assim como você mesmo postulou. Considerando que nossa geração pensa como você pensa, “O nosso conhecimento do mundo e de nós mesmo cresceu exponencialmente nos últimos séculos” como podemos esperar humildade de jovens que acham que sabem mais do que seus antepassados. Eu entendo que você vê isso como um ‘fato’ e não esta tentando ser arrogante, mas a consequência não muda, a visão fica nublada mesmo assim. E por isso, consideramos que quanto mais antigo a informação preservada, mais importante ela é, pois quanto mais antigo mais clara a visão, mais humildes eram e mais próximos do ‘homem tribal’ com suas maneiras simples e sábias. O grande problema com isso é um problema de linhagem. Se você não entende um texto, interpreta de maneiras fantasiosas, assim como a sociedade vulgar interpretou os textos maias e começou a criar propaganda de fim do mundo. É um exercicio de perda de tempo grátis. Para entender um texto muito antigo, precisa de um um pouco menos antigo, e outro um pouco menos ainda, até chegar a seu próprio professor. Isso é nosso método. É como se fosse o cordão de Ariadne no labirinto. Isto é a Torah. Nós conseguimos acessar o pensamento de um simples sábio que via o cosmos com simplicidade, Abraão, o pai de todas as nações. Só que se você pegar o livro que fala direto de Abraão, sem ler todos os outros que fazem você pode acessar isso, você vai estar fazendo o mesmo da galera do calendário Maia, estando superficial e enganado. Por isso dizemos que só Judeus podem fazer isso. Pois na verdade só nós queremos fazer isso. Na realidade qualquer pessoa tem acesso ao cordão de Ariadne que nosso povo preservou. Nenhum outro povo fez o mesmo, até onde sabemos. Outros povos interpolaram seus textos, mudaram isso e aquilo por motivos politicos e mudaram de “nome”. O povo judeu nada mais é do que um povo obsecado por sobrevivencia, uma mumificação no tempo. Para resumir, a geração atual pensa que é melhor do que os antepassados, nós Judeus pensamos o exato contrário. Nosso rabino é melhor que a gente, assim como nosso pai é, apesar de parecer que não, e o pai dele é melhor do que ele, etc. Isto é em termos de competencia humana, caráter, disciplina, etc. quantidade de informação nunca foi um bonus até os tempos atuais. Por isso a Torah, esta linha de textos e sabedoria que nunca cessou é importante. Não pode ser considerada como esses “pacotes” que você mencionou, pois considerando a distancia de grandeza que tem da nossa geração para a geração da Torah, temos que admitir que nós não entendemos se achamos errado alguma parte dela. O bom disso é que milhares de pessoas pelo mundo estão fazendo este exercicio e ninguem até hoje reportou algum ‘erro’ que não esteja explicado no próprio cordão de Ariadne.

Enquanto o que você fala sobre o ‘sagrado’ tem pertinência pois até as religiões mais primitivas mantem a ordem atraves de supertições e dogmas, isso é só uma feliz consequência de uma prática trágica. No Judaismo o sagrado não é estático. Não é uma reliquia, ou uma estátua. É aquilo que ainda não absorvemos. Isto é HaShem. O próximo nível. A nossa galaxia, seria sagrada no sentido de navegação espacial. É sagrado colocar teffilin todos os dias, por que hoje não colocamos. Quando colocamos se torna uma pratica internalizada, que entendemos. É sagrado escovar os dentes todos os dias para uma criança indisciplinada. Quando ela escova com facilidade não é mais sagrado, é só uma coisa que ela acha melhor fazer. O ‘sagrado’ é uma técnica de separação de uma ação para dar importância maior a ela para que possamos dominá-la ou preservá-la. A Torá é sagrada, pois se não fossemos muito rigidos com o mantimento dela nós já teriamos perdido esta linhagem que só nós mantemos. Isto é o sagrado. Se não esta definição, volto ao “HaShem Ehad” o cosmos é um, e nada é sagrado, tudo é o mesmo, ou tudo é sagrado. Enquanto isso nossa mente acha coisas sagradas. Você acha sagrado seus cursos de economia, se não achasse ia acabar não se dedicando a eles o suficiente. É uma ‘glande’ que podemos colocar a bom uso.

Esta é a nobreza do método ciêntifico. Quando os membros do movimento seguem isto, eles são humildes e bem sucedidos, quando se enganam e acreditam em coisas absolutas, se ridicularizam. Infelizmente isso acontece mais vezes do que desejamos.

Essas coisas que você diz que a ciência contradiz a Torah, talvez esteja falando da bíblia cristã que é uma tradução malfeita da Torá com adicionais e que não tem nossa disciplina e nossa linhagem de explicações. Pois na nossa linhagem nada foi contradito até hoje e todos os detalhes tem explicações totalmente anti-demagógicas e compreensíveis, mas que requerem dedicação e estudo.

Sobre a física quântica, é assim: se o micro é o componente do macro, o micro é a raiz de onde o macro começa a acontecer, então o que acontece no micro determina o que vai acontecer no macro, por isso tentamos aprender sobre física quantica, se não por que estudariamos ela se estamos ‘vivendo’ no macro? O engraçado é que as coisas mais profundas do misticismo foram ilustradas com avanços na fisica quantica. Obviamente para entender como precisa estudar um pouco de um e um pouco do outro pelo menos.

Acho que não fui claro na descrição resumida de Emes, pois você pareceu dizer que Emes agora não é Emes no futuro. Emes sempre é. Nós que achamos que era e de fato não era Emes alguma coisa. Você acha por exemplo que a terra esta no centro do sistema solar porque tem experimentos que comprovam por a mais b matematicamente que a terra esta no centro, então você temporariamente acha que isso é Emes. Daí com avanços no telescopio nossa visão se amplia e percebemos que conseguimos postular matematicamente que na verdade o sol esta no centro. A Emes sempre foi só uma, só que antes de termos o telescopio só conseguiamos ver o nivel de Emes ‘terra no centro do universo’. Mas prefiro não vulgarizar o termo falando tão pouco dele. Existem livros explicando Emes e a diferença da ‘verdade grega’. Eu quis explicar um lado simples dela. Acho que basta saber que é uma linguagem totalmente diferente e que as vezes discutimos com termos que parecem ser iguais mas não são e por isso causam discrepâncias que parecem ser contraditorias mas nunca foram.

Para saber se as histórias de Moisés são possíveis ou não teriamos que ter uma camera filmando 4000 anos atras. Não acho que seja relavante saber se é possível ou não. A pergunta é “Saber isso melhora ou não minha vida, me da conhecimentos importante ou não?”. A ciência não consegue desprovar nada disso, pois só fazemos projeções de como o mundo funciona agora para o passado tentando fazer estimativas e isso não funciona do mesmo jeito que não funciona para o futuro, por isso economistas não costumam ser os mais ricos homens. O que acontece agora, sim, mesmo em termos biologicos, em termos de leis da fisica, não necessariamente é verdade para 4000 anos atrás. Então o exercicio de desprovar os eventos é uma arrogancia desnecessária. Melhor é pegar a consequencia dos fatos que é relevante para nossa realidade atual, onde mares não levantam, e ver se funciona. Se não funciona, ta certo em jogar tudo no lixo, mas enquanto funciona, o fato de que “projetamos” uma realidade atual pro passado não vai ser argumento o suficiente para abandonar algo que funciona hoje e sempre funcionou. A agência das histórias da Torá é a vontade do cosmos, com lentes muito ampliadas esta vontade pode ser antropomorfizada para que nós entendamos ela, inclusive tem explicações mais profundas ainda. Por exemplo, quando diz o braço longo e generoso de De-s. De-s tem braço? Sim, é nós que não temos. Nós chamamos o que temos de braço como uma metafora para entender algo que o cosmos tem, que é a habilidade de manipular as coisas e fazer coisas acontecer. Assim conseguimos nos lembrar sempre que vemos De-s com seus braços longos e generosos, que nossos braços não são feitos para ‘coçar o saco’ (perdoe o vulgarismo) e sim para criar e ajudar o próximo, assim como o Cosmos faz em sua abundância. Assim esse De-s pessoal faz sentido. Não é pessoal no sentido de que a abundância é para todos sempre, é pessoal, no sentido de que nós tambem fazemos parte deste quadro e por isso temos acesso às habilidades que o Cosmos tem e assim quem domina mais essas habilidade é mais proximo de De-s, ou seja inclui mais atributos do Cosmos que são beneficentes a todos. Isso requer muita discussão.

Sobre saber tudo sobre algo antes de criticar. Depende da coisa. Se formos tentar opinar sobre cálculo avançado, algo que parece uma coisa pode ser outra muito facilmente. Se Einstein fosse ressucitado agora e passasse 10 anos se atualizando com a fisica quantica, ele daria uma palestra prum estadio, e só duas pessoas ficariam para fazer perguntas, pois ninguem mais ia sobreviver as 10 horas de informação nova que esta totalmente acima do nosso entendimento. Só que algumas coisas parecem simples. Como se você sobrevoasse um campo de agricultura e opinasse como agua as plantas e depois colhe o fruto. O fazendeiro talvez iria te explicar que você pulou passos, não entendeu certas coisas, etc.. Você pode opinar com um pé na humildade, querendo entender mais, mas opinar desmerecendo a complexidade do assunto é perda própria. Só que alguns argumentos simplesmente faltam conhecimento aprofundado, no geral a maioria simplesmente nem se aplica ao judaismo, pois é uma resposta a uma sociedade abusiva cristã, não judaica.

Não acredito que pensamos nada diferente, só temos acesso a linguagens diferentes e temos que nos atualizar sobre o uso delas.

Um grande abraço!

João


- 18/05/2014

Desculpa a demora pra responder. Eu adio a resposta para momentos nos quais tenho tempo de escrever com calma e cuidado para não deixar passar nada que considero relevante. Vamos lá.

Concordo plenamente que nosso entendimento de textos antigos pode ser turvo por interpretações modernas de ideias antigas. Nosso vocabulário é diferente, nossa visão de mundo é diferente, e muitas vezes não caminhamos necessariamente para frente. Principalmente nas questões meta-físicas e filosóficas, é pouco óbvio que “avançamos”. E, nesse sentido, se voltar a textos antigos pode nos trazer sabedoria, assim como ler Aristóteles ou Platão nos ensina sobre a Política, a Lógica ou o Amor. Também não poderia concordar mais com a premissa de que “quanto mais concentração, mais a mente humana funciona”. Esse é o princípio de uma grande lista de filosofias (Budismo, meditação, Naturalismo, Psicologia Positiva, etc). Mas, mais uma vez, não vejo necessidade de atrelarmos essa ideia a noções místicas ou sagradas. O próprio vídeo do Sam Harris que te mandei fala disso, de como podemos encarar meditação como um exercício mental secular, sem banha-la de conceitos universais ou religiosos. O “simples”, “natural” e “profundo” parece ser realmente o caminho para uma vida preenchida, uma vida satisfatória emocionalmente. Só que não precisamos extrapolar para “a simplicidade existencial nos traz mais perto do sagrado”. A filosofia secular suporta a premissa de simplicidade sem a necessidade de uma elevação “espiritual”.

Além disso, não compreendo porque o mais antigo tem, em princípio, uma visão mais clara, humilde e sábia. Precisaríamos mesmo discutir o que “sábio” quer dizer, pois parece que você está definindo “sábio” como “simples”. Nesse ponto outras preocupações parecem estar em jogo, como as distrações do mundo consumista moderno, a tecnologia que nos rouba a atenção continuamente, a urbanização que nos afasta uns dos outros e nos deixa mais estressados, com menos sentimento de pertencimento e comunidade. Esses são todos problemas, que nos afastam da “boa vida”, e que eu também luto contra. Deletei meu facebook, tirei notificações do celular, faço trilhas na Natureza sempre que possível e ouço música com a concentração que uma obra de arte merece. Agora isso não implica que devo enxergar os antigos, que viviam em pequenas vilas ou tribos, como mais “elevados”. Eles só não tinham acesso a tudo que temos, e não tinham que resistir a todas as tentações que temos. O mundo moderno nos trouxe vantagens e desvantagens. Os confortos materiais são inegavelmente um avanço (sem discutir aqui questões ambientais), só nos resta aprender a lidar “espiritualmente” com eles. Novamente isso não implica um status de “valor humano” maior para os antigos. Estamos na mesma escuridão que eles na busca da “boa vida”.

Sobre a prática da Ciência, precisamos discutir o que temos de mais nobre em princípio, e não a execução no dia a dia por pessoas que não entendem de verdade seus princípios. Talvez seja isso que você está tentando me mostrar com o Judaísmo, e por isso estou interessado. Só estou tentando esclarecer mal-entendidos de interpretações científicas do mundo, como pessoas acharem que cientistas são arrogantes ou coisas assim.

Gostaria de ver a linhagem judaica de explicações dos textos da Torah, mas talvez precise falar mais hebraico para entender. Comecei a ler o antigo testamento em português e tenho várias questões que gostaria de discutir. Vejo uma lista de pontos que a Ciência costestaria as afirmações lá postas. Mas isso pode ficar para outros emails.

Interessante o ponto sobre Emes. Talvez falte entender mais, mas essa descrição me parece igual à verdade Popperiana. Algo que existe e que não temos acesso em princípio. É a crença científica no modelo que esteja em voga, o que mais explica os fenômenos empíricos até o momento. Os modelos de Física Quântica e Relatividade Geral seriam nossa crença de Emes hoje, pois é o máximo que conseguimos enxergar e interpretar do mundo, é o mais próximo que conseguimos chegar da verdade hoje. Só note que Popper define um método de avançar essa prescrição de “verdade”. Uma afirmação se torna menos falsa probabilisticamente conforme não for sendo rejeitada em novos testes empíricos. Por isso a importância do empiricismo, porque ele é a nossa balança. Fora dele não podemos afirmar nada.

Sobre as histórias de Moisés e afirmações dos Testamentos, precisamos separar duas coisas. Por um lado podemos perguntar “esses conhecimentos melhoram a minha vida?”, o que podemos sempre perguntar com qualquer história ou conto. No fundo esse é o propósito dos contos: é nos dar uma narrativa de uma mundo fictício com uma conclusão que podemos incorporar à nossa vida sem termos que passar pela situação diretamente. Se ouvimos a história de uma pessoa que foi mordida por um tigre porque chegou perto demais dele, aprendemos que não devemos chegar perto de tigres. Nesse sentido é sempre útil ter histórias, porque elas realmente nos tornam mais “sábios”. Só note que histórias podem ser interessantes, podem “melhorar nossa vida”, mesmo se forem falsas. Eu posso contar a história de uma formiga que se afogava num lago, que berrou para companheiras e estas a salvaram, passando ensinando a uma criança valores morais de solidariedade e justiça. Mas formigas não gritam, pelo menos não no sentido passado na história, um sentido padrão de grito.

Por isso, por outro lado, é fundamental darmos um valor de verdade ou falsidade a essas histórias, pois elas carregam junto delas ideias religiosas que influenciam a vida de milhões de pessoas. É muito diferente uma crença religiosa onde realmente se acha que o Mar Vermelho foi aberto de outra onde sabemos que todas as histórias são falsas e tudo que temos é nossa crença construída atualmente. As leis da Física não eram diferentes há 4 mil anos atrás, nem as da Biologia. Na verdade as leis da Física parecem ser as mesmas em todos os cantos do Universo, uma das descobertas mais fascinantes da Ciência. Por isso extrapolamos nossos testes empíricos de hoje para aquela época, e por isso atestamos que o Mar não abriu, que uma árvore pegando fogo não fala, que Moisés não pode ter pego os 10 mandamentos de Deus no alto do Monte Sinai, que não houveram 10 pragas, que Jesus não ressucitou, que não somos decendentes de Adão e Eva, que não houve o dilúvio de Noé, entre tantas outras afirmações factuais dos livros sagrados. A Ciência tem sérios motivos para duvidar de tudo isso pois essas histórias vão contra toda, repito, toda a evidência empírica que acumulamos ao longo dos séculos. E é importante separarmos as verdades da falsidades pois as religiões realmente afirmavam sua veracidade até a Ciência surgir. Jesus ter andado sobre as águas faz parte dos milagres que os dão autoridade divina. Se nada disso aconteceu, então de onde vem sua divindade? Esse é o ponto de discutirmos se os contos são verdade ou não. E é por isso que digo que podemos tirar toda a sabedoria da Torah ou Bíblia, que continuará bela e interessante, sem a conferir status de Divino. As religiões tomaram o rumo fácil de reinterpretar os textos, dando sentido metafórico ao que antes era factual. Foram sendo empurradas à área das afirmações não-refutáveis, onde é mais confortável ficar. Por isso concordo com Nietszche, realmente nós matamos Deus.

Por fim, você argumenta que meus pontos não necessariamente se aplicam ao Judaísmo. Do que você me descreveu do Judaísmo (que foi ótimo ouvir, pois me esclareceu algumas dúvidas), minhas críticas parecem se aplicar igualmente. Caso você ache que não, e que ainda falta discussão sobre a interpretação judaica original, não a Cristã que você julga simplista e talvez falsa, eu tenho vontade de conversar com um rabino sobre tudo isso e ouvir mais. Estudaria se for preciso estudar, mas confesso que com a mentalidade de tentar me provar errado, e não o contrário. Pois receio que nenhum argumento deveria ser tão complexo a ponto de não poder ser explicado em alguns parágrafos (pelo menos suas linhas gerais) e, logo, suspeito que a verdade inalcançável, que requer anos de estudo para ser compreendida, pode não existir.

Um abraço!

Ricardo


- 01/06/2014

Vou organizar a responsa por paragrafos para ser mais objetivo. Desculpe a demora tambem. Passei uma semana inesquecível.

Concordo plenamente que nosso entendimento de textos antigos pode ser turvo por interpretações modernas de ideias antigas. Nosso vocabulário é diferente, nossa visão de mundo é diferente, e muitas vezes não caminhamos necessariamente para frente. Principalmente nas questões meta-físicas e filosóficas, é pouco óbvio que “avançamos”. E, nesse sentido, se voltar a textos antigos pode nos trazer sabedoria, assim como ler Aristóteles ou Platão nos ensina sobre a Política, a Lógica ou o Amor. Também não poderia concordar mais com a premissa de que “quanto mais concentração, mais a mente humana funciona”. Esse é o princípio de uma grande lista de filosofias (Budismo, meditação, Naturalismo, Psicologia Positiva, etc). Mas, mais uma vez, não vejo necessidade de atrelarmos essa ideia a noções místicas ou sagradas. O próprio vídeo do Sam Harris que te mandei fala disso, de como podemos encarar meditação como um exercício mental secular, sem banha-la de conceitos universais ou religiosos. O “simples”, “natural” e “profundo” parece ser realmente o caminho para uma vida preenchida, uma vida satisfatória emocionalmente. Só que não precisamos extrapolar para “a simplicidade existencial nos traz mais perto do sagrado”. A filosofia secular suporta a premissa de simplicidade sem a necessidade de uma elevação “espiritual”.

Acho que esse “pode ser” subestima o tanto que necessariamente é diferente. De fato, acho que é tão diferente que não existe esperança de tentar entender. Homero poderia estar falando coisas bem simplórias, poderia estar falando de tecnicas de agricultura ou localizações geográficas quando nós vemos histórias de Deuses e Monstros. A evolução e vulgarização da língua é muito interessante. Tinha épocas que pouquissimas pessoas tinham acesso a qualquer tipo de escrita ou arquivamento de pensamento. Quanto mais raro é a escrita e as ferramentas de escrever mais formal e precisa são suas colocações. Platão escreve no 4º século antes da Era Comum e diz que a civilização Grega já perdera seu acesso a sua linhagem verdadeira. Já diz que estão interpretando os textos tudo errado e que agora pegam textos sagrados e antropomorfizam para manter o status quo de regimes politicos atuais. Ele descreve no diálogo Cratylus que a lingua grega um dia teve sua gematria (sistema de correspondencia numérica, que nós mantivemos) e diz que os Gregos a perderam há muitos anos atrás. Ele tambem diz que a terra é redonda e da a data da última era glacial, coisas que só fomos ‘saber mesmo’ com ferramentas cientificas bem depois (mas isso são só curiosidades). O meu ponto é que os povos perdem as chaves de interpretação, e depois inventam coisas para doutrinar seguidores de seus regimes. E isso acontece várias vezes. A linhagem grega começou fazendo isso com Homero, continuou com Platão e depois fez com um Jesus, tentando manter uma “cultura” viva com desculpas demagógicas que tinham centeais de misticismo verdadeiro mas que poucos ou possivelmente nenhum sabia acessar.

Não entendo qual sua definição de sagrado ou místico e divino. Misticismo para os misticos com quem aprendo não passa de ‘as forças ocultas’ que Newton estudava. Uma delas, a gravidade, ele cunhou. Newton as chamava de ‘forças ocultas’. É isso que chamo de ocultismo e misticísmo. É simplesmente que não é o que esta aparente que esta controlando. Quem te deu um soco na cara? Não foi um homem, mas uma força psicologica que induz raiva e descontrole emocional ou heroismo espontaneo. Misticismo e ocultismo não passa de perguntar ‘o que há por trás?’. O interessante é que a resposta nunca para, sempre há algo maior por trás, mesmo se conceber de um Deus, mas explicar isso seria longo demais. Todo verdadeiro cientista é por esta definição místico. Pois, se não, estão só coletando dados para aqueles que são.

Além disso, não compreendo porque o mais antigo tem, em princípio, uma visão mais clara, humilde e sábia. Precisaríamos mesmo discutir o que “sábio” quer dizer, pois parece que você está definindo “sábio” como “simples”. Nesse ponto outras preocupações parecem estar em jogo, como as distrações do mundo consumista moderno, a tecnologia que nos rouba a atenção continuamente, a urbanização que nos afasta uns dos outros e nos deixa mais estressados, com menos sentimento de pertencimento e comunidade. Esses são todos problemas, que nos afastam da “boa vida”, e que eu também luto contra. Deletei meu facebook, tirei notificações do celular, faço trilhas na Natureza sempre que possível e ouço música com a concentração que uma obra de arte merece. Agora isso não implica que devo enxergar os antigos, que viviam em pequenas vilas ou tribos, como mais “elevados”. Eles só não tinham acesso a tudo que temos, e não tinham que resistir a todas as tentações que temos. O mundo moderno nos trouxe vantagens e desvantagens. Os confortos materiais são inegavelmente um avanço (sem discutir aqui questões ambientais), só nos resta aprender a lidar “espiritualmente” com eles. Novamente isso não implica um status de “valor humano” maior para os antigos. Estamos na mesma escuridão que eles na busca da “boa vida”.

Não precisa ser um grande mistico para saber que distrações atrapalham. Tem gente que faz o mínimo, e tem gente que dedica a vida a eliminar distrações, a aumentar a concentração. Existem sábios que passam anos calados, outros que passam semanas treinando a imaginação, até poder imaginar com tanta nitidez que consegue projeta novas realidades, como aqueles que andam sem agasalho e descalços na neve porque estão imaginando um fogo ao redor deles mesmos. Essas são cosias simples no mundo místico, mas que para um cidadão comum esta tão longe do alcance que parece magia ou ilusionismo. Na verdade é uma aplicação da conscienciencia concentrada nas leis da física, que mostra que certas leis são só limitações da nossa imaginação. Para alcançar certas visões e perspectivas, sem contar as ações, que são as mais vulgares (aquelas que gente comum chama de milagre), o ser humano precisa de uma disciplina muito além da rotina do cidadão comum. Isto inclui alimentação, respiração, o que se ouve, o que se vê, com quem se conversa, etc.. O que eu e você estamos fazendo, desligando aparelhos, meditando, prezando a natureza, etc., é só o suficiente para não estar totalmente na sarjeta, que a condição usual do ser humano. Nós estamos num limbo entre os sábios e os profanos. Os sábios aqueles que dedicam suas vidas pela clareza, pela compreensão sincera e serena e estão dispostos a darem quaisquer de seus caprichos e desejos pessoais em troca (a não serem confundidos por pessoas inteligentes que estão inseridas num mundo de glória onde aumentam o estatus por se mostrarem mais inteligentes que outros). Os profanos aqueles que ocupam cada segundo de seu dia com uma ansia por coisas pequenas, ouvem musica alta e repetitiva, se distraem, ou se anastesiam de uma forma ou de outra, estão interessados em “cultura”, “moda”, fofoca, e lamentam por não serem muito muito ricos (ainda que as vezes já sejam). Se o mundo moderno esta mais ou menos mau tanto faz, na verdade, não acho que seja uma discussão relevante. Reconhecer que existe a possibilidade de estar melhor é bom. Reconhecer que poderiamos estar melhor aprendendo com os antepassados tambem é bom.

Sobre a prática da Ciência, precisamos discutir o que temos de mais nobre em princípio, e não a execução no dia a dia por pessoas que não entendem de verdade seus princípios. Talvez seja isso que você está tentando me mostrar com o Judaísmo, e por isso estou interessado. Só estou tentando esclarecer mal-entendidos de interpretações científicas do mundo, como pessoas acharem que cientistas são arrogantes ou coisas assim.

Pra mim o verdadeiro cientista quer o mesmo que queremos, o progresso real da mente humana.

Gostaria de ver a linhagem judaica de explicações dos textos da Torah, mas talvez precise falar mais hebraico para entender. Comecei a ler o antigo testamento em português e tenho várias questões que gostaria de discutir. Vejo uma lista de pontos que a Ciência costestaria as afirmações lá postas. Mas isso pode ficar para outros emails.

Mesmo em Hebraico sem os comentários as ‘afirmações’ não passam de códigos sem chave.

Interessante o ponto sobre Emes. Talvez falte entender mais, mas essa descrição me parece igual à verdade Popperiana. Algo que existe e que não temos acesso em princípio. É a crença científica no modelo que esteja em voga, o que mais explica os fenômenos empíricos até o momento. Os modelos de Física Quântica e Relatividade Geral seriam nossa crença de Emes hoje, pois é o máximo que conseguimos enxergar e interpretar do mundo, é o mais próximo que conseguimos chegar da verdade hoje. Só note que Popper define um método de avançar essa prescrição de “verdade”. Uma afirmação se torna menos falsa probabilisticamente conforme não for sendo rejeitada em novos testes empíricos. Por isso a importância do empiricismo, porque ele é a nossa balança. Fora dele não podemos afirmar nada.

O Judaismo também presa o empiricismo, então acho que nisso concordamos com o Popper.

Sobre as histórias de Moisés e afirmações dos Testamentos, precisamos separar duas coisas. Por um lado podemos perguntar “esses conhecimentos melhoram a minha vida?”, o que podemos sempre perguntar com qualquer história ou conto. No fundo esse é o propósito dos contos: é nos dar uma narrativa de uma mundo fictício com uma conclusão que podemos incorporar à nossa vida sem termos que passar pela situação diretamente. Se ouvimos a história de uma pessoa que foi mordida por um tigre porque chegou perto demais dele, aprendemos que não devemos chegar perto de tigres. Nesse sentido é sempre útil ter histórias, porque elas realmente nos tornam mais “sábios”. Só note que histórias podem ser interessantes, podem “melhorar nossa vida”, mesmo se forem falsas. Eu posso contar a história de uma formiga que se afogava num lago, que berrou para companheiras e estas a salvaram, passando ensinando a uma criança valores morais de solidariedade e justiça. Mas formigas não gritam, pelo menos não no sentido passado na história, um sentido padrão de grito.

Concordo, o segredo da Torá não é o conteúdo, mas o autor. Pois Shakespeare conta melhores histórias do que a mulher do vizinho.

Por isso, por outro lado, é fundamental darmos um valor de verdade ou falsidade a essas histórias, pois elas carregam junto delas ideias religiosas que influenciam a vida de milhões de pessoas. É muito diferente uma crença religiosa onde realmente se acha que o Mar Vermelho foi aberto de outra onde sabemos que todas as histórias são falsas e tudo que temos é nossa crença construída atualmente. As leis da Física não eram diferentes há 4 mil anos atrás, nem as da Biologia. Na verdade as leis da Física parecem ser as mesmas em todos os cantos do Universo, uma das descobertas mais fascinantes da Ciência. Por isso extrapolamos nossos testes empíricos de hoje para aquela época, e por isso atestamos que o Mar não abriu, que uma árvore pegando fogo não fala, que Moisés não pode ter pego os 10 mandamentos de Deus no alto do Monte Sinai, que não houveram 10 pragas, que Jesus não ressucitou, que não somos decendentes de Adão e Eva, que não houve o dilúvio de Noé, entre tantas outras afirmações factuais dos livros sagrados. A Ciência tem sérios motivos para duvidar de tudo isso pois essas histórias vão contra toda, repito, toda a evidência empírica que acumulamos ao longo dos séculos. E é importante separarmos as verdades da falsidades pois as religiões realmente afirmavam sua veracidade até a Ciência surgir. Jesus ter andado sobre as águas faz parte dos milagres que os dão autoridade divina. Se nada disso aconteceu, então de onde vem sua divindade? Esse é o ponto de discutirmos se os contos são verdade ou não. E é por isso que digo que podemos tirar toda a sabedoria da Torah ou Bíblia, que continuará bela e interessante, sem a conferir status de Divino. As religiões tomaram o rumo fácil de reinterpretar os textos, dando sentido metafórico ao que antes era factual. Foram sendo empurradas à área das afirmações não-refutáveis, onde é mais confortável ficar. Por isso concordo com Nietszche, realmente nós matamos Deus.

Nínguem vive baseado no fato de que o mar vermelho se abriu. Somos ensinados a não acreditar em milagres, ou mesmo se acreditarmos não levar em consideração o milagre. A narrativa Judaica diz para acreditarmos em Deus por que o vimos com os proprios olhos no monte Sinai, pois milagres qualquer charlatão faz. O que significa que vimos Deus no Monte Sinai? Isso é um grande mistério, mas a conclusão deste mistério não é necessária para a efetividade do Judaismo. Muitos rabinos desconsideram esta questão totalmente. O poder da Torá é auto-suficiente e por isso não depende de nossa crença. Assim como quem não acredita, ou não entende como funciona eletricidade pode ligar uma luz. No final das contas temos uma tradição que nos faz prosperar e sobreviver e ninguem consegue explicar de onde ‘veio’ e por isso e outras coisas discutimos e estudamos para tentar entender, sem confundir aqueles que são de intelecto mais primário ou que estão assimilados e distraídos.

Você não sabe se as leis da física eram diferentes ou não 4 mil anos atrás, o que faz é uma projeção baseada no que vê hoje. Esse argumento é simplesmente falho. Ninguem garante que precisa haver constancia das leis da fisica durante a evolução do universo. Mesmo que descubramos que as leis da fisica sejam constantes em todos os cantos do universo, estamos falando do que podemos observar daqui e hoje. Eu não quero usar o contrário como argumento, mas acho um grande passo de fé confiar que isso é verdade e sempre foi, sendo que não estamos lá. Quando você fala a ciência acredita, ou as religiões afirmavam, você certamente sabe que nenhum grande cientista concorda nem 50% com outro grande cientista, e o mesmo das religiões.

O valor da Torá vem do povo Judeu. Olhe para o povo judeu e reflita “de onde vem este valor?” e a resposta é da Torá, e vice versa. É um mistério, mas ‘é’ mesmo assim. Como disse, somos ensinados a desdenhar milagres, só Cristão depende disso para viver vidas justas. E outra, nós não mudamos a interpretação para ficarmos mais confortáveis. Nós continuamos com os mesmos comentários que temos desde a primeira vez que foram escritos e mantemos 100% de sua veracidade, apesar de muito de nossos sábios terem tambem se tornado astro-fisicos e arqueólogos e geologos renomados.

Por fim, você argumenta que meus pontos não necessariamente se aplicam ao Judaísmo. Do que você me descreveu do Judaísmo (que foi ótimo ouvir, pois me esclareceu algumas dúvidas), minhas críticas parecem se aplicar igualmente. Caso você ache que não, e que ainda falta discussão sobre a interpretação judaica original, não a Cristã que você julga simplista e talvez falsa, eu tenho vontade de conversar com um rabino sobre tudo isso e ouvir mais. Estudaria se for preciso estudar, mas confesso que com a mentalidade de tentar me provar errado, e não o contrário. Pois receio que nenhum argumento deveria ser tão complexo a ponto de não poder ser explicado em alguns parágrafos (pelo menos suas linhas gerais) e, logo, suspeito que a verdade inalcançável, que requer anos de estudo para ser compreendida, pode não existir.

A única verdade que existe não existe. Pois ninguém nunca chegou a um paragráfo que sejam os Beatles de paragrafos, que agradem a todos. Eu suspeito que independente do que fala, você vai passar a vida tentando chegar nessa verdade, mesmo que saiba que ela se quer existe. Assim é Deus, mesmo sem existir estamos procurando.

Um abraço!

Um abraço! 🙂